
“Azul é a Cor Mais Quente” é o ótimo filme francês vencedor da Palma de Ouro em Cannes esse ano de 2013.
O filme foi tão especial para o juri presidido por Steven Spielberg que eles deram o prêmio para o diretor e para as 2 atrizes principais do filme, fato inédito em Cannes.
Eu quando li a notícia lá em maio, fiquei feliz por vários motivos, principalmente por ser um filme sobre um casal de lésbicas, baseado numa HQ e o melhor de tudo, com cenas de sexo que diziam ter sido filmadas com crueza de filme pornô, como disse no meu outro blog num post com o singelo título “Lésbicas arrebatam Cannes”.
Assim que saiu aqui, comprei o livro editado pela Matins Fontes. Li num sábado de manhã de sol e chorei muito. A história é linda, fala de uma menina de 15 anos de idade que se descobre lésbica e tudo o que vem na sequência. Bem escrito, bem desenhado, lindo demais.
Eis que agora, em dezembro, o filme estreia em SP depois de muita polêmica mundo afora.
Tudo começou quando logo após o final do festival e do filme ser elevado a obra prima, uma das atrizes, Léa Seydoux começa a detonar o diretor Abdellatif Kechiche, acusando-o de tirano, de frio e calculista, de ter abusado de seu “poder” de diretor, falando em assédio moral, que se ela pudesse não teria feito o filme. Basicamente toda entrevista que ela dava ela falava muito mal do cara. Até que ele deve ter ficado bem puto e mandou avisá-la que se ela não ficasse calada ele ia processá-la. Ela se calou.
Depois a outra atriz, Adèle Exarchopoulos a que faz a menina de 15 anos, entrou na mesma parada e começou a falar mal do cara, acusando das mesmas coisas.
O cara ficou bem puto e saiu dando entrevistas dizendo que as duas falam mal dele mas na hora de receber o prêmio em Cannes o abraçavam e beijavam e estavam felizes da vida. Disse que na hora dela ir pro festival e usar vestidos caros e jóias emprestadas ela estava feliz.
Só sei que semana passada teve uma pré estreia do filme em SP e o diretor veio e a tal da atriz mais nova veio junto e eles estavam felizes da vida.
Fim dos problemas? Não, agora a autora da HQ começou a falar mal do cara e do filme, dizendo que era um absurdo ele ter feito um filme sobre lésbicas e não ter um casal de atrizes lésbicas fazendo os papéis principais. Na minha opinião, essa mulher não poderia ter falado bosta maior. Quer dizer que se você faz um filme sobre viciados em heroína você tem que ter um junkie no papel de viciado.
E se você faz um filme de monstros tem que ter um alien no papel principal.
O que me irrita muito nessas histórias todas é o povo querer aparecer em cima de um hype (válido no caso, porque o filme é bom).
Claro que hoje em dia com internets da vida todo mundo dá sim sua opinião e publica tudo e não tá nem aí, mas por favor, né?
De qualquer maneira, tudo isso pra falar que o filme é sim bem bacana.
Infelizmente eu li a HQ antes e a história é fenomenal.
E o filme peca por uma mudança na história, que na minha opinião, era o mais legal sobre as meninas.
(é cada vez mais foda escrever sobre filmes sem spoilers, mas eu tento)
Até mais ou menos a metade do filme a história é fiel a HQ, que é a parte que eu mais gostei.
Depois o viés que o diretor dá me deixou mais desanimado. Mas isso é a opinião de alguém que conehce “o outro lado”.
O filme tem 2 pontos altos na minha opinião, que o difere de quase todos os outros que estão em cartaz por aí e digo mais, de todos os outros mesmo.
Primeiro, o sexo: o filme tem uma sequência de uma transa das 2 personagens, a primeira, que é um absurdo de boa. Explícita, linda, barulhenta, excitante que me deixou muito excitado como nunca antes num filme non porn.
O diretor tira das atrizes o melhor que elas com certeza nem imaginavam que poderiam dar.
Ele chega perto, invade a alma das 2 e coloca isso em super close ups na tela gigante nos dando de presente o que não conseguiríamos ver de nenhuma outra forma.
Como eu sempre digo, o que me faz amar o cinema é o close up, a proximidade, a intimidade criada pela câmera e pelas lentes da câmera.
Acreditar no que eu vejo é a coisa mais importante num filme pra mim. Atores mal colocados e mal dirigidos, papéis errados, posicionamentos de câmera que não dizem nada, isso tudo me irrita.
Quando elas transam, você acredita que elas são lésbicas, que elas se amam, que elas vivem de verdade aquilo ali. Eu pelo menos não tive a menor dúvida.
E isso por causa do diretor, esse geniozinho Abdellatif Kechiche que foi lá, supostamente maltratou as meninas, fez com que elas não tivessem descanso nos 5 meses que demorou pra filmar, fez com que elas dormissem e ele filmasse o sono, fez com que elas transassem durante 10 dias pra ter essa cena magnífica, fez com que elas se afastassem de suas vidas normais para elas viverem mesmo as vidas de suas personagens.
E se isso é o que fez esse filme a obra prima que é, que ensinem isso nas escolas de cinema.
Chega de filmes anódinos, sem graça, com personagens rasos e que ninguém acredita. Chega de história bobas. Ou melhor, que continuem as histórias bobas também, mas bem contadas, com profundidade, de maneira que acreditemos no que nos mostram.
Hitchcock sempre falava que ator é gado, tá lá pra fazer o que o diretor manda.
Lars Von Trier tá aí, Bjork ganhou Cannes como melhor atriz num filme dele e nem foi pegar o prêmio porque disse que estava traumatizada. E na minha opinião poucas coisas da Bjork são melhores que ela no filme do Trier.
Esse “Azul é a Cor Mais Quente” é um filme obrigatório pra molecada, pra descoberta da sexualidade, pro começo de relações.
De novo, apesar dele pecar na mudança da história e levar pra um caminho que eu não gosto tanto, o filme merece ser visto e sim, é um dos melhores de 2013.
