Talvez você não se lembre mas lá pelos anos 90 houve o boom do cinema indie americano e de lá saíram nomes como Tarantino e Steven Soderbergh só pra citar 2 nomes que ganharam a Palma de Ouro no Festival de Cannes com filmes pequenos e geniais.
De lá pra cá muita coisa mudou nesse nicho.
Hoje em dia você vê a lista de filmes de festivais indies como Sundance e SXSW e os filmes estão lotados de estrelas da tv e do cinema americano e assim conseguem cada vez mais dinheiro pra serem produzidos e distribuídos.
Mesmo assim o verdadeiro indie continua firme e forte. Quer dizer, nem tão firme e nem tão forte mas cada vez com menos dinheiro.
Um exemplo disso é “Tangerine”, na minha opinião, o filme do ano.
Os caras tinham 100 mil dólares, tão pouco dinheiro que rodaram o filme com a câmera de 3 iPhones 5S. Pra isso testaram lentes e aparatos e truques pra conseguirem o que queriam e conseguiram.
O diretor Sean S. Baker preferiu ter um pouco mais de dinheiro de produção e diárias de rodagem do que gastar com equipamento. Chamou um diretor de fotografia que se mostrou genial, Radium Cheung, e juntos em menos de 20 dias rodaram a história de 2 transexuais numa noite de Natal procurando o namorado/cafetão de uma delas.
O filme é quase uma comédia romântica, mais uma comédia de erros com um belo de um drama: a trans “trabalhadora do sexo” Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez) acabou de sair de 28 dias de prisão e com a ajuda de sua amiga também trans Alexandra (Mya Taylor) vão atrás de Chester (James Ransone), o namorado de Sin-Dee que está tendo um caso com uma mulher cis.
Tudo isso no dia de Natal, no centrão trash de Hollywood e com um show de atuação das duas atrizes principais.
Mas o melhor de tudo de “Tangerine” não é nada disso que eu falei até agora. Pela primeira vez na história a Academia de Cinema americana, que entrega os Oscars todo ano, está considerando a possibilidade de incluir na lista de melhor atriz ou atriz coadjuvante as atrizes trans do filme.
Um feito e tanto pra um filminho que estreou em Sundance e aos poucos foi descoberto por todos os seus atributos como o grande filme de 2015: uma comédia tradicional vivida por atrizes não tradicionais filmada de forma também não tradicional é a grande esperança do cinema indie americana e uma lição pro cinema brasileiro.
(Eu assisti “Tangerine” num festival esse ano em SP mas tem pra baixar em torrent e estreia no Netflix agora em dezembro.)

