Baita filme.
Puta filme.
Que filme do caralho!
E por aí vão meus elogios a O Estudante, filme russo inacreditável que conta a história de um estudante (claro), do que seria nosso ensino médio, fissurado pela Bíblia e que começa a viver sob seus preceitos literais.
O cara, pra começar, só anda de preto e vive pregando e citando as escrituras o tempo inteiro. Tenta colocar na cabeça de seus colegas de escola, de seus professores, de sua mãe e de todo mundo que apareça na sua frente que a palavra de Deus, como está no livro sagrado, é o que interessa.
Ele se considera o escolhido, um messias, um profeta nesse mundo perdido onde tudo o que há de mal reina.
Ele prega que sexo não é bom, que as mulheres se oferecem para os homens, que os gays são uma aberração e tudo mais que a gente pode esperar de um cara desses.
Falando em bizarro, ele não é o único de sua classe, porque seus colegas também consideram um garoto que tem uma perna menor que a outra a aberração da escola.
Todo salvador precisa de um discípulo, então o bizarro arruma seu primeiro apóstolo, o outro estranho da escola, um garoto que tem uma perna menor que a outra e que é a aberração da escola.
O filme é lindo demais.
Drama fudido, profundo (adjetivo besta, mas pertinente), graças ao diretor Kirill Serebrennikov, que também roteirizou o filme.
Os planos são longos, o filme é muito bem ensaiado e dirigido, a trilha é de arrepiar (tem até God is God do Laibach), o elenco é um sonho, um ator melhor que o outro
Aliás, o título original do filme em russo é “(M)uchenik”, que é um jogo de palavras com “uchenik” (estudante) e com o M na frente “(M)uchenik” que quer dizer Mártir, o título original da peça de onde o filme é baseado.
O Estudante não é um filme fácil, daqueles de se assistir num sábado a tarde, mas é o tipo de filme que dá um nó na cabeça no melhor dos nós possíveis.
Em tempos de extremismos políticos, a história do estudante que se torna um extremista religioso, é quase uma lição, até porque qualquer extremismo é ruim.
O Estudante, além de tudo o que já disse que tem de bom, tem um detalhezinho importante: hoje em dia a gente descobriu que não tem mais o bonzinho total e o vilão total. Todo mundo tem um lado oposto, e os filmes tem mostrado isso, como eu até falei no vilão do Homem Aranha que é um fiodaputa mas tem uma família linda que ele ama e cuida e trata bem.
Neste filme, o cara que pira, o extremista, o pregador, é um cara que não tem o lado “normal”: o lado bom dele é muito parecido com o lado mau, quase não há diferença, à medida que o filme vai se passando e vamos conhecendo melhor o personagem, percebemos que não conseguimos identificar se o que ele faz é bom ou ruim. E é aí que mora o perigo. Mas é aí que a gente deve se atentar pra conhecer de verdade quem está à nossa volta.
Quando ele cria uma nova forma de viver, no que acreditar e como viver a partir desses novos preceitos e leis que ele segue, nada mais é normal, ou o que é normal pra ele não é pra quem o rodeia.
Por favor, assista esse filme.
Nunca te pedi nada.

