Thelma é mais que um filme, é uma oração, quase uma missa, uma experiência religiosa.
O filme do norueguês Joachim Trier, assistido aos 43 minutos do tempo final de 2017 me fez repensar toda a lista dos meus preferidos do ano.
Pra começo de conversa, olhe esse poster: o mais lindo do ano, o mais lindo dos últimos tempos.
Thelma é uma garota que acabou de entrar na universidade. Mora sozinha, não tem amigos; é introvertida, quieta, na sua, em um ambiente onde os jovens mais são barulhentos e efusivos e querem se fazer notar.
O problema de Thelma é que ela tem uns episódios de epilepsia onde coisas estranhas acontecem. Não com ela, mas com a natureza, com o universo. Ou as coisas acontecem por causa dela nesses episódios.
E por causa dela outra coisa estranha também acontece: coisas e pessoas somem. Mais ou menos.
Em outros tempos, Thelma já teria sido queimada em uma fogueira, pra pensar o mínimo.
Hoje em dia, seu pai médico e católico radical a entope de remédios para acalmá-la, para que nada disso venha à tona.
Além disso, usa o cristianismo para fazer com que ela “ande na linha”, diz que ela foi salva quando descobriu Jesus.
Mas longe da família, ela não tem controle sobre o que nem conhece.
As primeiras cenas do filme mostram Thelma, com uns 6, 7 anos de idade, indo caçar um cervo com seu pai numa floresta congelada.
Quando ela para a frente de seu pai para observar o animal de longe, seu pai aponta a arma para a cabeça da filha.
Esse é o tom do filme.
Sóbrio e sombrio, pesado de verdade, tenso mas também sensual.
Thelma morando sozinha começa a descobrir a vida de verdade, descobre o tesão e pira; descobre a paixão por outra mulher e acha que está pecando; bebe e fuma com culpa; “viaja” de maconha sem saber o que está acontecendo, beija, agarra e chora.
E quando chora, pira de desespero mesmo, volta para seu pai que, adivinha: a entope de remédios de novo para que ela não pense, não sinta, não viva.
Trier constrói a grande personagem do ano, uma menina poderosa que não sabe que é. Uma menina linda que não sabe que é uma mulher mais linda ainda. Uma mulher que sente, ama, chora, sofre pelas razões erradas por causa de uma família castradora.
Já viu isso por aí?
Nem é metáfora, é realidade, quase documental.
Thelma arrasa por onde passa, está ganhando prêmios a torto e a direito e é o tipo de filme que, se feito no Brasil, nunca seria o representante do país no Oscar de língua estrangeira como este é pela Noruega.
Thelma é uma porrada, terror lésbico como muitos o apresentam mas não só.
É um dos maiores raios x de uma personagem do cinema atual.
Imperdível.
