Primeiro, um conselho: não assista O Sacrifício do Cervo Sagrado numa madrugada fria. Você não vai conseguir dormir nunca mais na vida.
O novo filme do diretor grego Yorgos Lanthimos faz jus à sua cinematografia linda e surreal e absurda.
Depois de A Lagosta, um dos melhores filmes de 2016, Lanthimos volta ao seio familiar que lhe é tão caro como vimos em Caninos.
Desta vez, Colin Farrell, que parece já ser o ator/alter ego de Lanthimos, é um médico barbudo e peludo, casado com uma outra médica, lânguida e centrada, vivida por Nichole Kidman com quem tem um casal de filhos.
O médico tem uns encontros estranhos com um adolescente, com uma intimidade desconcertante, dando por exemplo um relógio bem caro de presente para o menino o que nos faz desconfiar de muita coisa.
Mas logo descobrimos que na verdade o pai do menino morreu em uma cirurgia comandada pelo médico e daí vem a proximidade dos dois.
Mas não só isso.
Um dia o filho do médico não consegue levantar da cama, ou melhor, perde o controle de suas pernas. Do nada.
Mas não só isso
Daí pra frente o seio familiar despenca com revelações inesperadas, provas de amor que nunca existiram e decisões que devem ser tomadas mas que ninguém tem coragem de que aconteçam.
E o adolescente “estranho e poderoso” se faz mais presente e poderoso do que antes.
O roteiro do filme é de uma preciosidade inigualável.
As personagens criadas e as situações que vão aparecendo são possíveis apenas no universo de uma mente tão brilhante como de Lanthimos, que cria um terror quase religioso (olha lá a coincidência com Thelma) onde os personagens são tirados de suas vidinhas e jogados no olho de não um, mas de alguns furacões que vão dragando tudo que aparece pela frente.
O diretor mais uma vez dá uma aula de direção de ator com sua família pseudo perfeita e principalmente com seu adolescente estranho, inesperado e muito poderoso.
O sacrifício do título, que parece ser uma metáfora, claro que não o é nesse terror do cineasta grego mais surrealista de hoje em dia.
As nuances, que nas mãos de alguém mais “cool” seriam de sutilezas, nas mãos de Lanthimos viram tapas nas nossas caras sem o menor pudor.
E o cervo sagrado é oferecido aos deuses do cinema que salvam quem merece salvação.
Amém.
