Meu povo, temos um vencedor!
Aos 43 minutos do segundo tempo, ou 2 dias antes de acabar o 2017, assisti o melhor filme do ano disparado.
O francês 120 Batimentos por Segundo, escrito e dirigido pelo meu novo herói, o marroquino Robin Campillo é não só o melhor filme de 2017 mas um dos mais importantes filmes dos últimos anos e com certeza o melhor filme já feito sobre a AIDS lá no começo dos anos 1990’s onde a França sofreu uma verdadeira epidemia, passando de 3% da população infectada para quase 40%, sendo o país europeu mais afetado pela doença.
Campillo escreveu um roteiro maravilhoso, baseado em suas próprias experiências como participante da perna francesa do grupo ACT UP, um grupo radical de ação para ajudar na luta contra discriminação de portadores do HIV mas também para cobrar ação de governos e indústria farmacêutica, principalmente.
Uma regra básica, para entender o grupo, é que se você vira um participante, você tem que se assumir soropositivo, mesmo que não o seja. É um ato radical muito interessante e que no decorrer do filme entendemos a razão.
A ação do filme tem um foco principal dentro desse grupo e em alguns de seus principais participantes. Um novato, Nathan, se envolve bem ativamente no grupo e aos poucos vai se aproximando de Sean, um soropositivo bem atuante e bem radical, como se deve ser no ACT UP.
O que seria óbvio um fio condutor do filme a relação dos 2, nas mãos de um ótimo e ousado diretor como Campillo é mais um presente que ele nos dá para respirarmos num filme tão denso e profundo como esse.
Os encontros do ACT UP são incríveis e nada do que eu esperava.
Seus participantes são muito informados, muito politizados, conhecem muito de medicina relacionada à AIDS.
Todas as sequências nessas reuniões são tão bem editadas que me deram a impressão de serem reais, nada ensaiadas por seus atores.
Campillo mostra o quanto essas pessoas lá nos anos 1990’s não sabiam o que estavam enfrentando, muito porque a indústria da saúde ainda não entendia a AIDS e não sabia lidar com essa doença estranha.
O filme tem umas sequências tão fortes, tão lindas, potentes, que me fizeram chorar como há muito não chorava em um filme.
Acho que a cena mais linda do ano é um cortejo fúnebre desse filme, onde os integrantes do ACT UP vão andando pelas ruas de Paris portando cartazes com a foto de um menino do grupo que morreu em decorrência do HIV, mas como eles falavam lá, morreu de AIDS. Todos de preto, em silêncio, portando cartazes com a foto em preto e branco do menino, com alguns gritos de guerra solitários, andando atrás do rabecão.
De rasgar o coração. A cena sobre AIDS que nunca foi feita no cinema e que já ficou para a história.
Outra cena linda é um protesto deles na rua, onde depois de muito gritarem e andarem, se deitam no chão ao som de um remix lindo e sincopado de Small Town Boy do Bronski Beat, a música gay por excelência.
A música vai crescendo e se transforma no hino das pistas e o filme mostra a pista fervida com o povo do ACT UP comemorando o sucesso do dia e mostrando que, como eles dizem, eles estão morrendo mas não desistiram da vida.
Aliás, o filme é todo cheio de truques de mestre do diretor Campillo, onde ele mistura em uma mesma sequência, uma cena de sexo com uma lembrança triste.
Aos poucos a história de amor de Nathan e Sean vai ganhando o centro do filme quando as condições de saúde de Sean vão piorando a olhos vistos e ele vai se revoltando com tudo e com todos, inclusive com seus companheiros do grupo.
E Campillo vai se mostrando um diretor incansável e meticuloso nos pequenos detalhes.
O poster do filme indica uma festa, o título do filme indica o que pode ser os batimentos do coração, mas também o bpm de uma música.
A história contada em 120 Batimentos por Segundo é primordial, obrigatória e todos os outros sinônimos possíveis.
E é um filme que não poderia sair de outro lugar que não da França.
Ousado, pungente, forte e sem condescendência nem concessão, 120 Batimentos por Segundo deveria virar matéria de escola, deveria passar no noite da ceia de Natal pra família assistir junta.
E o filme não ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro é pra nem assistir a premiação ano que vem.
E o melhor de tudo, o filme estreia semana que vem, dia 4.
Então, corra!
