Não aguento mais começar posts reclamando dos títulos brasileiros de filmes. Essa mania de contar a história do filme, de explicar o filme no título é muito coisa de provinciano mesmo.
(Dê o play na trilha do filme, que já começa muito bem com “Genesis” do Justice)
Passou.
Começando do começo, The Square é um puta filme europeu, clássico europeu, como a um tempinho eu não via.
O filme sueco é sobre um homem, branco, bonito, rico, inteligente, diretor artístico de um museu de arte contemporânea, vivido pelo dinamarquês Claes Bang (o ator perfeito para esse papel, um grande acerto).
Ele tem um carro elétrico, doa para causas boas, recicla o lixo, mas também é misógino, preconceituoso, xenófobo e pretensioso. Mas ele também diz que é amigo de pelo menos um dos maiores bilionários do mundo, donos de mais da metade do dinheiro que circula, quer dizer, um dos culpados pela miséria geral.
Um anti herói da vida moderna: bacana e escroto na mesma proporção.
Sob seu comando o museu expõe o que há de mais inovador nas artes plásticas e para chamar público para a próxima obra exposta no museu, The Square (o quadrado, do título), ele contrata uma agência de marketing digital com seus criadores jovens e malucões, o que não sai exatamente como ele gostaria.
Em paralelo, esse cara um dia cai em um golpe ridículo na rua onde furtam sua carteira, seu celular e suas abotoaduras.
Ele não se conforma com isso e usa um aplicativo de localização do celular para colocar em prática um plano infalível para recuperar seus bens: vai até o prédio, na periferia, claro, onde o sinal indica que o celular lá vai estar e entrega uma carta em cada apartamento do prédio com uma ameaça de exposição.
O plano de reaver suas coisas dá certo. Mais ou menos.
A partir de então, a partir desse ato irresponsável de julgar e acusar tanta gente, ao mesmo tempo que deixou para segundo plano suas obrigações para com o museu, sua vida vira um caos.
Pessoalmente e profissionalmente tudo vai acontecendo de uma forma absurdamente inesperada e absurda.
Todos os seus atos anteriores, de uma forma ou de outra, acabaram levando esse homem a esse momento farsesco que ele entra.
Parece uma peça de Alfred Jarry filmada pelo Buñuel se ele tivesse nascido na Suécia. Sem os arroubos de gênio do diretor espanhol, mas com tiradas inacreditavelmente de mestre.
É um filme quase bobo, doido, por vezes eu não acreditava no caminho que o roteiro vinha tomando. Mas isso é muito bom.
O filme então passa a ter um tom desse quase surrealismo.
Sabe quando “a casa caiu” e tudo vem à tona ao mesmo tempo?
A mulher que ele maltratou vem cobrá-lo.
Aliás, a mulher é a ótima Elisabeth Moss, fazendo um papel bem diferente do que temos nos acostumado a vê-la.
A pessoa que se sentiu muito ofendida por ser chamada de ladra vem cobrar explicação e uma desculpa.
A displicência no trabalho faz com que um vídeo sobre a exposição The Square viralize. E todo mundo sabe que para um vídeo viralizar, tem que ter alguma coisa muito chocante, sempre para o mal.
O problema é que ele não sabia do vídeo, que foi feito sem seu conhecimento.
Mas as cobranças aparecem de todos os lados.
Mesmo assim ele parece não aprender.
Em uma cena que ele destrata um mendigo muçulmano e na próxima ele pede que o imigrante pobre o ajude, o que ele faz sem pestanejar.
Tudo isso em meio a muita miséria e pobreza numa Suécia rica. Parece que para onde você olha tem sem tetos, pedintes e ladrões nas ruas.
E a cereja do bolo: a crítica ao meio artístico, com esse diretor artístico narcisista e displicente, os artistas sem noção, os milionários que dão dinheiro em troca de nomes em alas de museu sem saber onde esse dinheiro vai ser usado, a imprensa crucificante.
E apesar de todos esses pesares, a vida continua nesse país de ricos que não se acostumam com os imigrantes e não sabem lidar com eles.
Tudo filmado com uma frieza e uma precisão de cortar o ar tenso de cenas nunca vistas em um filme como esse antes.
Por isso e por muito mais, The Square ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017 e vem sendo indicado para tudo quanto é prêmio grande mundo afora.
O diretor Ruben Östlund vem confirmar sua vocação e sua destreza em fazer filmes nunca dantes vistos, criando uma estética e uma profundidade ética que (e aqui faço uma premonição) vai levá-lo a alçar vôos cada vez mais altos e ousados, para a nossa felicidade cinéfila.
NOTA 🎬🎬🎬🎬🎬
