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178/365 DESOBEDIÊNCIA

Desobediência é o filme que lá pelos seus 20 minutos eu me peguei pensando “nossa, como é bom viver numa época e num lugar onde esse tipo de coisa não existe”.

Daí eu me liguei que Desobediência não é um filme de época e que o escândalo causado por um romance lésbico em uma comunidade judaica radical na Inglaterra não é nada absurdo ou diferente do que a gente lê das histórias bizarras não só pelos rincões “atrasados” do Brasil mas também em SP, no Rio, em Londres, Paris e principalmente nos EUA quase nazistas.

Sai pra lá Handmaid’s Tale.

No filme, uma fotógrafa bem sucedida, que vive em NY, volta à sua cidadezinha, à sua comunidade de onde foi banida anos antes, por causa da morte de seu pai, o principal rabino.

Sim, ela foi banida de lá porque ela namorava, ou teve um caso com outra mulher, que agora está noiva e vai se casar com o novo rabino, que ocupará o posto de seu falecido pai.

Claro que para Ronit, que vive numa cidade grande e evoluída, o reencontro com sua ex não causa tanto (ou mesmo nenhum) problema quanto em Eni, que fica totalmente abalada, como também fica o seu agora noivo. E claro, o resto da comunidade.

Desobediência foi co escrito e dirigido pelo chileno Sebastián Lélio, o vencedor do Oscar desse ano com seu brilhante Uma Mulher Fantástica.

E na verdade, Rachel Weisz, a Ronit, co-produtora do filme, não poderia ter escolhido melhor diretor para o filme.

Como no filme chileno, em Desobediência a personagem principal é também uma mulher que não se encaixa em um padrão pré estabelecido onde vive e com isso sofre as consequências.

Mas não consequências de suas escolhas, consequências por não se deixar “amansar” pelas seus pares.

No caso deste filme, as convenções religiosas radicais são tão impiedosas ou até piores que a sociedade chilena que não aceita a esposa transsexual de um homem que acabou de morrer.

Em Desobediência, a filha lésbica do rabino que acabou de morrer é tratada com o mesmo ódio.

As duas personagens de filmes distintos do mesmo diretor acabam tendo a coincidente pecha de “doentes” por motivos tão diferentes e tão parecidos.

E como disse lá em cima, nos dias de hoje, por escolhas absolutamente que não fazem a menor diferença na vida de outras pessoas.

Desobediência, por pouco, não é tão genial quanto o filme chileno. Infelizmente, quando o indie não é tão indie assim, é difícil ter em cena o que realmente se faz necessário para contar a história, o que neste caso seria a nudez das duas amantes, sua maior intimidade, a demonstração de amor mais profundo possível.

O triângulo formado por Rachel Weisz, Rachel MacAdams e Alessandro Nivola é uma das coisas mais lindas que eu vi no cinema ultimamente, mas infelizmente pelas razões contrárias esteticamente ao que eu gostaria de ter visto.

Enquanto eu esperava um show de Weisz em um dos papéis da sua vida, quem rouba a cena é MacAdams com a frágil e reprimida Eni e principalmente com Nivola, um dos atores americanos que eu mais gosto nos últimos anos, e que por algum motivo ininteligível, até hoje não conseguiu um papel que o levasse ao nível de filmes que ele merece estar.

Ou não tinha conseguido porque acho que Desobediência muda isso em sua carreira.

E veja bem, não que Rachel Weisz não esteja bem no filme, ela está correta. Mas por vezes meio que em uma sintonia diferente do que sua personagem merecesse.

Mas o grande problema do filme é Lélio, que parece que se deixou levar por uma empolgação infundada e que acaba cometendo uns deslizes narrativos que por vezes quase acabam comprometendo cenas fundamentais do filme.

Mas nada que um puxão de orelha bem dado por algum produtor não resolva.

NOTA 🎬🎬🎬🎬

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