Apesar do título bem cafona, que poderia ser de um filme meloso dos anos 1980, Domando o Destino representa bem o que a história que esse filmaço conta.
Brady é um cowboy do interiorzão americano, mas bota interior mesmo e bota cowboy mesmo.
Só que ele sofreu uma queda em um rodeio e teve que colocar uma placa de metal para segurar e fechar seu crânio que espatifou.
Por isso Brady não pode nem mais participar de rodeio nem mais cavalgar, que na verdade era sua primeira paixão, domar cavalos selvagens.
Domando o Destino conta lindamente a história de um cara que um dia acorda de um acidente proibido de fazer o que ama.
E Brady sofre. Calado, quieto, sozinho mas sofre, o pobre coitado.
Ele arruma um emprego em um supermercado como uma nova forma de ganhar dinheiro e o faz muito a contra gosto, por necessidade e quase desespero.
Ele visita seu grande amigo que também depois de um acidente pior que o dele, não fala, não anda mas Brady vai lá, conversa, ajuda.
Seus amigos são todos cowboys e o desconforto de Brady estar com eles é visível, porque ele sabe que está ali tão perto de tudo mas ao mesmo tempo está mais distante que nunca.
A roteirista e diretora Chloé Zhao mostra com esse filme que se os próximos forem neste nível de delicadeza, profundidade, destreza e principalmente com o mesmo nível de direção, temos uma vencedora.
Como falei essa semana na resenha de Skate Kitchen, Domando o Destino parece um documentário, de tão real que tudo parece no filme.
Zhao usa como pode e como não pode todos os seus maiores atributos cinematográficos para que nem percebamos que uma câmera está ali filmando atores (não profissionais, mas atores) que foram dirigidos e decoraram textos e mais textos.
E ao mesmo tempo que isso parece ser bem fácil, esse desprendimento que a diretora tem ao não poder ou não querer aparecer é o que na minha opinião mostra o quanto ela é sábia.
Domando o Destino é o filme que desbancou do meu coração o também maravilhoso A Rota Selvagem. E olha que eu gostei muito do filme do moleque sem casa que vaga com seu cavalo.
Dominando o Destino não tem metáfora, não tem subtexto, é tudo na cara, é o cowboy perdido, o epítome do herói americano, só que sem chão, sem rumo, sem saber o que fazer no próximo minuto de sua vida.
Brady não tem mãe, tem um pai que bebeu todas as economias da família e tem uma irmã com deficiência que Brady ama e cuida com o maior carinho possível.
Pra um cowboy.
Dominando o Destino tem uma das sub historinhas mais lindas do ano, quando Brady “se apaixona” por um cavalo chamado Apollo, que como Brady sofreu um acidente e também como o cowboy, não serve mais para ser montado nem nada parecido.
Na fala mais punk do filme, Brady fala para sua irmã que ele tem sorte de ser humano, porque logo Apollo vai ter que levar um tiro na testa porque não tem mais utilidade e só dá gastos, isso por ter sofrido um acidente. E ele diz “a sorte é que sou um homem e não podem dar um tiro na minha testa”.
De partir o coração de lindo e triste, melancólico demais.
Domando o Destino acabou de receber o prêmio de Melhor Filme de 2018 no Spirits Awards, o prêmio mais importante do cinema indie americano desta época pré premiações gigantes.
E é uma dica para observarmos que o cowboy perdido pode aparecer muito mais nos próximos meses.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

