Alfonso Cuarón, na minha opinião o maior cineasta vivo, sutilmente dá uma dica do que vamos ver em Roma nos créditos iniciais: em um close fixo de uns ladrilhos do que são o chão de uma casa, ouvimos ao fundo alguém começando a ligar uma água, enquanto os créditos vão sendo mostrados. Aos poucos descobrimos que o chão está sendo lavado e essa água chega no chão que vemos e assim, por causa da água vemos um reflexo lindo de sol, que dá vida ao chão cinza e sem graça.
Quem está lavando o chão é Cleo, a empregada que veio dos confins do México para trabalhar na casa de uma família de classe média na capital, nos idos dos anos 1970.
Como no Brasil, a cultura da empregada doméstica é bem normal no México e quando Roma começa e vi que a história de Cleo é mais importante ou mais relevante do que a história da família de seus patrões, pensei que o filme seria uma versão de Que Horas Ela Volta? ou algo parecido.
Só que Cuarón não veio pra essa vida cinematográfica de brincadeira, o cara sempre surpreende e nunca decepciona e não, Roma não é uma história de relação de empregada e patroa.
Até é, mas não só, não em primeiro plano e não como fio condutor.
Começando pelo título, Roma, a cidade italiana num filme mexicano, qual será a pegadinha? Nenhuma, só que Roma é AMOR ao contrário e a história de Cleo é toda de amor ao contrário.
História, aliás, que eu não vou contar aqui.
O que interessa é que a história é tão linda quanto sutil. Na verdade sutil é a maneira como Cuarón a conta.
A empregada que é “parte da família”, onde as crianças e os adultos dependem muito dela mas na menor crise, a patroa dá um berro com ela e a manda arrumar o que fazer.
Sim, eles a ajudam quando ela mais precisa, mas é igualzinho no Brasil, a patroa sempre diz que a empregada é de casa mas ela nunca come à mesa com a família porque está ocupada servindo.
Mas a sutileza do roteiro dá lugar a, de novo, o maior cineasta vivo mostrar a que veio.
A começar pela fotografia impressionante em preto e branco a cargo do próprio Cuarón, que mostra que sabe tudo mesmo. E olha que ele sempre trabalha com outro mestre, o também mexicano e um dos mestres da fotografia moderna, Emmanuel Lubezki.
Mas o que me deixou mais feliz que tudo isso em Roma é que Cuarón usou e abusou dos seus intermináveis planos sequências, aqueles planos sem corte, que a câmera acompanha a ação toda como se fosse a gente lá ao vivo vendo sem corte.
Todo o mérito do mundo para um dos planos sequência mais absurdos da história do cinema, quase no final de Roma, na praia.
Eu achava que nada seria mais emocionante que o que ele fez em Filhos da Esperança com a sequência da emboscada e do carro explodindo.
Cuarón sabe a que veio, diz na nossa cara e faz o que quer e comer quer pra contar suas histórias que nunca, mas nunca mesmo me decepcionam.
Que filme. Que diretor. Que homem.
P.S. – talvez o mais importante de tudo seja o fato da Netflix ter produzido este filme que levou o prêmio de melhor filme do Festival de Veneza e é forte candidato a ganhar um monte de coisas pelos Globos de Ouros e Oscar da vida.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

