Eu tardo mas não falho.
Faz uns dias que assisti Assunto de Família, o filme japonês em cartaz nos cinemas por aqui, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes ano passado.
Faz uns dias que a qualquer momento que eu pare meus afazeres e relaxe eu começo a pensar no filme. E demoro pra conseguir parar.
Assunto de Família é um daqueles filmes que começam bem, vão devagarinho e quando você menos espera está totalmente entregue.
Coisas de obras primas.
O filme conta a história de uma família bem atípica, bem peculiar e bem pobre de Tóquio: avó, pai, mãe, irmã da mãe e filho vivem meio que amontoados em uma casa minúscula, mas vivem felizes, com sorrisos nos rostos.
Todos eles trabalham em empregos que os pagam muito pouco e para complementar sua renda, eles roubam em lojas e supermercados, geralmente o pai e o filho, um encobrindo o outro, sempre com sucesso.
Uma noite de frio e de chuva, voltando para casa, a dupla se depara com uma menina pequena em uma varanda, molhada, com fome, sozinha e oferecem a ela um bolinho e levam a menina para casa.
Lá ela come, toma banho, é bem cuidada pela família e se mostra uma fofa.
No outro dia, ao levarem a menina de volta para sua casa, pai e mãe ouvem os pais da menina brigando e gritando, dizendo que nenhum dos 2 a queria. Eles ficam com medo de deixá-la por lá e a levam de volta para sua casa.
Aos poucos, Yuri, como ela se chama, vai se tornando parte da família, brincando com o irmão, comendo com todo mundo e, claro, furtando nas lojas como todo mundo da casa.
Esses furtos são um pequeno detalhe do dia a dia de todos eles, já que como disse, eles trabalham, todos com rotinas, mas essa é a forma que conseguiram para ter uma vida mais digna. Um pouco mais, pelo menos.
E é por causa desse pecadilho dos Shibata que suas vidas vão dar uma guinada inesperada.
Só um detalhe: os pequenos pecados e crimes da família são tão bem justificados por eles mesmos que a gente nem percebe o quanto eles se perderam nessa vida.
Quanto mais o filme vai passando, mais fui me apaixonando por todos eles e os identificando como meus vizinhos, gente que poderia morar na casa ao lado da minha, gente que eu conheço e que nos dias cruéis que vivemos não encontram outras soluções mais razoáveis para sobreviverem.
Assunto de Família não tem plot twist, não tem mirabolâncias de direção, não tem fotografia contrastadas e salas monocromáticas.
Assunto de Família é aquele filme humanista, pé no chão, onde o diretor deixa o elenco brilhar, deixa o roteiro contar a história, deixa que o tempo seja o senhor através de uma montagem milimetricamente perfeita.
O filme é fofo, é engraçado mas é uma porrada no estômago atrás da outra.
Quer dizer, são várias micro porradas no estômago mas que ao final do filme percebemos o quanto estamos doloridos.
Se você só for assistir um filme no cinema nos próximos dias, assista Assunto de Família e acredite que uma experiência desse nível é cada vez mais rara em 2019.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

