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3/2019 A FAVORITA

Assim que eu gosto, terceiro dia do ano e já um dos top 10 de 2019 sem a menor sombra de dúvida: A Favorita é o filme a ser visto.

E ainda, Olivia Colman como a Rainha Anne, que eu aprendi a amar nas séries inglesas, dá show, rouba todas as cenas e digo mais, rouba o protagonismo do próprio diretor Yorgos Lanthimos que sempre aparece mais que tudo em seus filmes.

E olha que ele tentou de novo.

A Favorita é filme de diretor, filme de quem sabe fazer cinema, nível Roma do Cuarón. E garanto que vai vir um monte de gente chata reclamando da grande angular, da câmera baixa, dos planos sem corte, das correções de câmera abruptas e muito mais.

Isso tudo se chama classe, técnica e conhecimento.

O diretor tem que entender muito de cinema e de como contar uma história para fazer o que esses geniozinhos fazem.

Só que eles não contavam com a astúcia de Olivia Colman.

Ela faz a mais icônica possível Rainha Anne, lésbica, desajeitada e meio ignorantona, que se deixava levar por suas amantes.

Ou se me permitem, se deixava levar pelas carícias, pelos dedos e línguas de suas amantes, como o filme deixa bem claro.

A Favorita claro que é a atual amante da Rainha, que dita as regras, faz e desfaz, manda e desmanda, vivida pela mais que maravilhosa e já reincidente em Yorgos, minha musa desde sempre, Rachel Weisz.

O filme se passa no início do século 18 quando a Inglaterra estava em guerra com a França e a favorita Rachel e seu marido e comparsas, comandavam as ordens da Rainha aos seus subordinados.

Até que um dia uma parente da favorita vai pedir emprego e abrigo e começa a trabalhar na cozinha do castelo.

A inteligente e esperta aia (vivida pela ótima Emma Stone, mas que aqui não aparece mais que as 2 inglesas) consegue curar um problema na perna da rainha com um unguento e aos poucos vai ganhando sua confiança.

Uma trama maquiavélica se inicia, meio All About Eve, onde a nova ambiciosa jovem, tenta tirar o lugar de favorita de sua prima mais velha, fazendo tudo o que for preciso para tal, inclusive, aos poucos, se insinuando para Anne, usando de todos os artifícios possíveis para chegar à sua intimidade, para ser bem fino. Só que nenhuma das 2 pode ganhar essa batalha homérica, o máximo que podem é uma destruir a outra. Porque logo virá outra e mais outra. E quem ganha é a rainha, zuada, doente, manca e com o mundo e as aias e as cortesãs aos seus pés.

Se você leu até aqui e se perguntou “ué, mas e o bizarrismo surreal do Yorgos, deixou pra trás, já que o roteiro não é dele?” e eu respondo: o lindo deste filme é que o bizarro era o dia a dia da nobreza inglesa, onde criar coelhos no quarto virou mania nacional e comer abacaxi era a moda da época.

O quase surreal está muito na direção de arte do filme: a fotografia, o figurino, as locações, os cenários, são tão opulentes e tão magníficos que parecem de sonho.

Tudo isso contrastando com uma precisa direção de ator onde a Rainha é mandona, fodona e gritona; onde a amante é ardilosa, sutil quando precisa e descarada na maioria das vezes; onde a novata é bonitinha, sensual, se faz de ingênua mas é a mais esperta de todas.

E como disse lá em cima, Yorgos, ah Yorgos, ele dá um show o filme inteiro.

Nada é por acaso, tudo conta uma história, do lenço que uma mulher usa para se limpar aos armários encerados pelos corredores semi escurecidos do castelo. Do bolo gigante no quarto da rainha, até o olho dela semi cerrado quando fica mais doente. Dos vestidos maravilhosos pretos com detalhes absurdos em branco à semi armadura de couro marrom que a rainha usa para poder dançar.

Os gritos de Colman mandando e desmandando seus subalternos ficarão para a história, como também ficarão as cenas de coelhos e mais coelhos sobrepostas às cenas mais, digamos, íntimas da rainha.

A Favorita é o filme para muitos, é uma comédia bizarra, de roteiro fácil (mas muito, muito bem escrito) que trouxe o cinema do doido grego para a galera.

De tudo isso que já elogiei, o que mais me deixa feliz é que esse é um filme que dá pra indicarmos pro pai e a mãe assistirem sem medo de falarem “mas o cara se apaixona por uma lagosta?” e te odiar por uns dias.

A história da Rainha da Inglaterra sapatão que come quem ela quer porque ela pode é o máximo.

E não, o filme não é só isso, como disse é uma trama lindona de traição, chantagens e modos de se dar bem de personagens patéticos, costurada pelas punições de sua própria decadência.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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