Boy Erased: Um Verdade Anulada é um filme, ou melhor, um petardo inesperado, daqueles que caem nas nossas cabeças sem aviso e que causam um estrago irreversível.
O filme conta a história de um adolescente gay, Jared, filho de um casal de evangélicos, com o pai pastor da igreja Batista, que quando descobre que o menino foi estuprado na escola, resolve mandá-lo para um “campo” de terapia de conversão, tão comum nos EUA e que por incrível que pareça, começou a aparecer por aqui.
Um dos filmes bons de 2018 foi O Mau Exemplo de Cameron Post, onde uma adolescente lésbica era mandada para um desses lugares. Boy Erased é o oposto daquele filme. Só que tão bom quanto, talvez até melhor.
Boy Erased é um drama desgramado, bem filho da puta, pesado, cruel até, como dizem em todo lugar onde você lê sobre o filme.
Na minha opinião Boy Erased faz parte de uma nova categoria de filmes, a de terror sociológico, que tem Corra! como seu grande expoente.
Só que pior que Corra!, Boy Erased é baseado em uma história real. Através do livro (e dos artigos) autobiográfico de Garrard Conley, ficamos sabendo da crueldade que sofre quem participa desses programas de conversão, comandados por “ex-gays” frustrados que, como vemos no filme, querem descontar sua raiva em quem por lá passa. E pior, com o apoio das famílias, dos pais monstros, desses adolescentes.
Boy Erased foi escrito, dirigido e também estrelado pelo australiano preferido do blog, Joel Edgerton. Mais um ator quebrando tudo atrás da cadeira de diretor em um filmaço, contando uma história sobre sexualidade com delicadeza que merece e ao mesmo tempo com a potência e a força que precisa para ecoar longe.
E o melhor: Joel conseguiu um elenco tão mas tão bom para o filme que ele nem brilha tanto.
O adolescente é vivido pelo até então promissor Lucas Hedges, um cara de 22 anos de idade que em Boy Erased mostra mais uma vez a que veio só que agora, muito bem dirigido e com um papel perfeito, mostra que é o melhor ator de sua geração.
Seus pais, o pastor careta e a esposa peruona, são ninguém menos que Russell Crowe e Nicole Kidman.
A gente tá cansado de ver o Crowe ser o toscão da história, né? Mas aqui ele nos relembra que ele é um puta ator, que vai a extremos de atuação sem arroubos estilísticos e que apesar de seu tamanho todo, e em Boy Erased ele tá grande, a sutileza lhe cabe como uma luva.
E o que falar da Nicole? Ah, Nicole, a mãe ausente, submissa, com as unhas francesinhas impecáveis mas que não presta atenção no sofrimento do filho também nos faz lembrar que uma atriz acima de todas as médias faz o papel de uma monstra em um filme desses, uma monstra da vida real, nos deixando de queixo caído a cada cena que vai se passando.
Quando eu assisto um filme com um bom roteiro, fico feliz. Se ele é bem dirigido, com a história bem contada, fico mais feliz. E se tem um elenco perfeito que faz o que quer para deixar o filme melhor ainda, que sonho.
Boy Erased não é daqueles filmes com arroubos estilísticos, com a fotografia mais linda ou com a direção de arte absurda.
Boy Erased é o filme que conta a história mais punk, que a gente não acredita que aconteceu na vida real e conta da melhor maneira possível para que quem o assista saia com várias pulgas atrás das orelhas, repensando em tudo mesmo.
Para terminar, tenho que falar da trilha de Boy Erased, a cargo da sensação pop Troye Sivan, que faz sua estreia como ator no filme, inclusive. A música que coloquei lá em cima, no início do post é de cortar o coração quando toca no filme.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

