82/2019 MAL NOSSO

Desde que assisti Mal Nosso fiquei na dúvida se o filme era muito ruim ou muito bom.

Mal Nosso parece uma pornochanchada de terror extremo.

E no final das contas, funcionou demais.

Mal Nosso é o filme mais radical com os melhores resultados, feito no Brasil ultimamente. Quer dizer, ultimamente são nos últimos 20 anos, provavelmente.

O filme conta a história de um cara bem estranho, um gorducho careca que começa o filme navegando pela deep web, assistindo o vídeo de um (serial killer?) assassino bem do mal escapelando uma mulher, viva, claro e depois dando um tiro em sua cara, num típico snuff que a gente sempre ouve dizer que existe mas ninguém nunca viu.

O gordinho manda uma mensagem pro tal assassino dizendo que precisa de seus préstimos, eles se encontram em um bar e combinam como as coisas vão acontecer: ele precisa matar uma pessoa num dia determinado antes da meia noite, sem falha. E entrega para o assassino um envelope com metade do pagamento e um pendrive com instruções específicas de como fazer e de como receber a outra metade depois do trabalho.

A tensão do filme é grande, a trilha é bem pontual e bem precisa para sublinhar essa tensão.

O assassino continua no bar e vai conversar com 2 mulheres que estão sozinhas. Convence as 2 irem para sua casa e lá, adivinha? Acaba com as 2 cruelmente, confirmando seu modus operandi do vídeo da deep web e mostrando o quanto o diretor gosta do cinema extremo de terror francês.

Logo depois vemos uma sequência fofa do gordinho em sua casa, preparando um bolo de chocolate de aniversário para sua filha que completa 20 anos, mostrando o que eu venho falando há um tempo já, que no cinema de hoje, os malvados, os vilões, os doentes, são as pessoas normais, os nossos vizinhos gente boa.

Daí pra frente eu não posso contar o que acontece, só que o roteiro é de uma criatividade só, apesar de ser um clássico filme de terror.

O que acontece é que as referências de Mal Nosso vão de Freddy Kruger, passam por O Exorcista e termina no extremo francês, como disse antes. E o mais legal é que essas referências todas funcionam, no que poderia ser o samba do terror doido.

Samuel Galli, o diretor e roteirista mostra em Mal Nosso a que veio. E o cara veio pra ficar.

Quando você acha que tá vendo um filme de gore extremo, o filme muda pra um terror esotérico, tem exorcismo, muito muito sangue, pra daí nos entregar uma porrada na cara.

O que disse lá acima sobre ser uma pornochanchada de terror é o que me incomodou em princípio mas que hoje eu acho ser uma das grandes coisas do filme.

Os atores são ruins. Todos eles. Só tem um que se salva, o cara da cena da banheira (sim, Freddy Kruger). O resto todo é quase triste de se ver em princípio, mas aos poucos você vai se acostumando com a tosquice, apesar de prejudicar bastante os diálogos

Se você nunca viu uma pornochanchada, o ápice do cinema brasileiro dos anos 1980, esta é uma boa apresentação. Um bando de ator ruim que se prestava a fazer cenas de sexo soft core em roteiros inexistentes. Tudo isso por causa de pouca grana pra se fazer filmes. Mas os heróis da resistência, os diretores, faziam o que podiam numa ditadura escrota que não dava 1 centavo pra cultura brasileira.

Mal Nosso tem essa vibe, o filme foi feito com muito pouco dinheiro mesmo, vemos isso no filme todo. E o elenco parece ter tido a menor parte do orçamento.

Acontece que isso acabou se tornando linguagem. E olha que tô elogiando, o que teria sido um xoxo.

Mal Nosso é aquele filme que você não espera do cinema brasileiro, um absurdo de bom, feito sem nenhum dinheiro de leis de incentivo, usando um dos grandes nomes do terror nacional, Rodrigo Aragão nos efeitos especiais e na criação das duas criaturas, com um roteiro usado, personagens bizarros, fortes e tudo muito, muito do mal.

Também como disse lá em cima, Mal Nosso é o filme mais radical mais importante do cinema brasileiro recente e junto com Animal Cordial e As Boas Maneiras já podem ser usados como o cartão de visita do maravilhoso cinema de terror tupiniquim.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

Um pensamento sobre “82/2019 MAL NOSSO

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