Depois de O Filho de Saul, eu fiquei ansiosamente esperando o que seria do diretor Laszlo Nemes, que praticamente reinventou o filme sobre os campos de concentração.
Finalmente assisti Sunset, seu mais recente filme. Mas não é dele que vou escrever aqui hoje e sim do novo filme de Géza Rohrig, o Saul do título que se ainda não tiver uma estátua em sua cidade natal, já tem sua estrela no céu do cinema.
Em Ao Pó Voltará, Rohrig vive um judeu chassídico na Nova Iorque dos dias de hoje que, coincidentemente ou não, como no filme do Saul também enfrente um dilema extremo com a morte.
Naquele filme ele procurava um rabino para dar o funeral apropriado a uma criança em um campo de concentração.
Agora, inconformado com a recente morte de sua esposa, ele procura entender o que vai acontecer com seu cadáver.
Para isso, contra todos seus preceitos religiosos (e ele os tem aos borbotões) o “cantor” Shmuel acaba em uma universidade e se aproxima de um professor que o ajuda das formas mais extremas possíveis, para seus “papéis”, a entender o que acontece com a esposa falecida.
Rohrig, como grande ator que é, merecia não menos que outro absurdo de ator junto para essa jornada e o diretor Shawn Snyder lhe deu de presente Matthew Broderick, uma pérola.
O filme é uma jornada de uma das duplas mais inesperadas das telonas para não só entender para onde vamos mas também como, por que e todas as outras nossas perguntas mais existenciais possíveis.
Os radicalismos do roteiro, começando com a ideia das personagens principais e depois passeando pelo dia a dia de cada um e de todos os pequenos riscos que eles correm ao tentarem entender a vida e a morte são primorosos.
Mais do que meu apreço por Rohrig, Ao Pó Voltará fez com que meu amor antigo a Broderick revivesse, como revive em cada filme que assisto com ele, por menor que seja seu papel.
E não só em filme, digo de passagem. Broderick dá um showzinho como o psiquiatra-ex-amigo-atual-namorado de Sam Fox, da maravilhosa Pamela Adlon na minha série favorita Better Things.
Broderick pra mim, sempre vai ter a cara do Ferrys Bueller que envelheceu e sossegou. E neste filme, o personagem do professor que ajuda o cantor ser vivido por um ator com essa cara de quase bonachão mas com uma ponta de sabedoria nos olhos é de uma lindeza que só um ótimo diretor teria.
O filme é estranho, é curto (olha que coisa boa hoje em dia), poderia ser um Tarkovsky, de tão profundo que é, mas o humor ácido e sutil é maior que o choro e a depressão que poderiam vir de tão profundo tema., porque fala a verdade, nada melhor que uma comédia (estranha, mas comédia) sobre um cadáver apodrecendo.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬

