Em tempos onde o documentário se popularizou de tal forma que qualquer edição meio jornalística hoje em dia é considerada um filme, Honeyland é uma obra prima, como se Joris Ivens, o maior poeta dos documentaristas, usasse o diretor de fotografia dos filmes do Tarkovsky.
O filme conta a história real (óbvio) de Hatidze, uma apicultora que vive no meio do nada da Macedônia sob o mantra de que ao pegar mel, deixe sempre metade para as abelhas sobreviverem.
Como a gente já sabe, as abelhas estão morrendo no planeta todo, o que vem sendo anunciado como um bio cataclisma sem volta.
Em Honeyland, Hatzide vê as suas abelhas morrendo.
Produtoras do melhor mel possível, verdadeiro remédio dos deuses, tratadas como filhas pela mulher que mora com a mãe idosa, a criação vai sumindo por descaso e descuido de seu vizinho, que por uma oferta irrecusável, vende seu mel antes do tempo atrapalhando toda a região, matando muitas abelhas, deixando Hatzide desesperada.
Conte a história de seu vilarejo que ela reverberará como uma história universal, já disse o filósofo.
Apesar desse drama da vida real, Honeyland parece mais uma oração a uma mulher que tem seu destino totalmente ligado à natureza, aos bichinhos produtores e ao precioso mel.
Honeyland é “O” documentário onde o roteiro mais se aproxima de uma ficção. Parece por vezes que o filme tem personagens inventados e cenários de estúdio. Mas é tudo real, as pessoas estão em seu habitat, em lugares lúgubres com uma luz absurda de linda, em meio a um deserto (como diz o vizinho ganancioso).
Hatzide parece um ser de outro mundo, uma ninfa, nem sei explicar. Ela parece flutuar, parece ter uma aura totalmente diferente do que eu esperava ver na situação em que ela vive.
Quando ela conversa com sua mãe, velhinha que mal sai da cama, Hatzide mostra seu lado humano, da mulher que quer entender porque nunca casou e que diz desejar que sua mãe fosse uma criança para ela pegar nos braços e levá-la dali.
Os diretores Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov mostram que a vida nesse paraíso perdido do mel parece ser maior que a o nosso dia a dia, a vida como nós conhecemos.
Honeyland é uma prece, uma homenagem, uma meditação. Asisstir o documentário é nos ajoelharmos a Hatzide e pedirmos que ela nos dê um pouco da força que encontra em suas companheiras aladas para sobreviver apesar de todos os pesares.
Honeyland foi o grande vencedor de Sundance 2019 e acabou de ganhar o prêmio de melhor documentário pelo juri da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Se não for indicado ao Oscar como melhor fotografia, pode suspender a premiação de 2020.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

