Eu fico tão, mas tão feliz de assistir uma pequena obra prima como este The Tale Of Silyan, A Lenda de Silyan, que eu volto a acreditar que o cinema bom ainda é possível.
Este documentário quase ficcionalizado é a indicação da Macedônia ao Oscar de Filme Internacional 2026. Claro que as múmias da “academia de hollywood” vão pensar que esse seja um filme menor, ou qualquer coisa do tipo mas isso é um poema fílmico.
A lenda do título é sobre o menino Silyan que séculos atrás disse ao seu pai que não queria mais morar com a família em um vilarejozinho no meio do nada. Ele queria ir para a cidade grande, queria ter uma “vida grande”.
Muito mas muito bravo, seu pai o amaldoçoou, transformando Silyan em uma cegonha, que aliás, é o pássaro da Macedônia. Por lá é onde vive o maior número de cegonhas brancas do mundo.
Acontece que as cegonhas não vivem sozinhas e quando Silyan se transformou, não foi aceito pelas já existentes e assim teve que viver sozinho. Por isso não conseguiu atravessar o país e ir pra cidade grande que sempre almejou e passou sua vida vivendo na mesma casa que nasceu, ao lado do pai que o amaldiçoou sem que ele soubesse.
No filme, a gente conhece a história de Nikola, um fazendeiro e sua família que vendiam sempre toneladas de produtos que produziam e que aos poucos vão deixando de vender, de ganhar dinheiro até ter que praticamente ver parte de sua produção apodrecer em seus galpões, tudo culpa obviamente do governo que achaca os produtores para ter mais lucro lá na frente com impostos.
Com esse problemão, a família de Nikola vai aos poucos indo embora da Macedônia.
Eles vão para a Alemanha procurar sub empregos que não pagam nem a creche da filha pequena, a neta queria de Nikola, que acaba sozinho porque sua mulher precisa ir pra Alemanha também pra cuidar da menina enquanto a filha e o marido trabalham para juntar um dinheirinho qualquer.
Nikola sozinho precisa aprender a se virar, a cozinhar, a cuidar da casa, a dormir sozinho e precisa arrumar um emprego, já que sua fazenda não produz mais porque não vendia o que produzia.
Nesse meio tempo Nikola encontra uma cegonha branca ferida (o Silyan?), cuida dela com todo amor e forma uma ligaçnao profunda com o bicho, daquelas que ele tinha com a família por perto só que agora tem com o filho de outro que não ele mesmo.
A diretora deste filme é uma das minha ídolas, Tamara Kotevska, diretora do meu documentário preferido da vida Honeyland.
O interessante foi não saber deste detalhe antes de ver o filme e descobrir isso porque logo nos primeiros 20 minutos de filme eu senti aquele mesmo cuidado e excelência cinematográfica que senti no documentário sobre a criadora de abelhas.
Tamara consegue com sua câmera penetrar “entre os juncos”, atravessar paredes invisíveis que separarriam o ator de suas lentes, sem que seu elenco, mas principalmente sem que seu personagem principal se sinta acuado, invadido ou quem sabe até manipulado.
O cinema documental de Tamara, como disse lá em cinema que é quase ficcionalizado, vem da montagem, do depois do filmar, apesar dela ter a coragem e a destreza de preparar suas cenas com maestria e precisão.
Nikola não está em nenhuma cena deste filme “por acaso enquadrado”. Tudo é milimetricamente pensado, como foi em Honeyland, onde eu vi a direção de arte, a cinematografia estética, tomar conta de um documentário tão intimista.
The Tale of Silyan também é intimista, mas com planos mais abertos. E também é muito triste, como era Honeyland, mas com a família ao par de tudo que acontece pelas chamadas de vídeo do celular de Nikola, o que na verdade parece afastar mais ainda nosso “herói” de seus amados.
E aqui o chamo de herói primeiro por ser o protagonista do filme, o herói desta jornada cinematográfica, mas também por ter a força de um herói de não vender suas terras, de não degradá-las, de não acabar com a história de seus antepassados pelo dinheiro do seguro.
A cegonha Silya fica onde nasceu assim como Nikola também fica e espera que um dia sua família volte e ainda o reconheça como o Nikola de sempre e não como um animal amaldiçoado.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

