178/2020 PACARRETE

É tanto elogio a ser feito a Pacarrete que já começo dizendo ser o grande filme brasileiro de 2020.

E o melhor, está no Festival Online do Itaú por míseros R$8,50, só clicar aqui e chorar de felicidade.

Antes de falar do filme em si, depois de elogiado, tenho que falar uma coisa: no Brasil, não tem atriz mais talentosa que Marcélia Cartaxo.

Desculpem as Fernandas, as Cristianes, as Marias e as Joanas, mas Marcélia está em um nível que poucas alcançaram, tipo Fernanda Montenegro nos anos 1980/90, antes de virar a canastrona de vozeirão e respiros calculados entre as palavras em todas suas personagens recentes, que acabam parecendo sempre as mesmas.

Uma historinha de Marcélia: em outra vida minha, lá pelos anos 1988/9, quando morava longe e estudava em francês, levei minha turma e 2 professores para assistirem A Hora da Estrela que tinha estreado em um cinema em Lyon, exatamente na época que estudávamos cinema periférico como eles chamavam o cinema fora do eixo europeu de arte.

No outro dia, já em aula, o coordenador do curso de veio nos dizer que o currículo do próximo ano mudaria por causa de Marcelia e de sua diretora Suzana Amaral, já que na França colonizadora do nariz empinado, eles chegaram a conclusão de que não podiam estudar só Glauber Rocha, como eu vinha dizendo a eles.

Lá em 1985/6, Marcélia venceu o prêmio de melhor atriz do Festival de Berlim com sua Macabéa inesquecível, sob a batuta da mais que sempre inesquecível Suzana Amaral, que nos deixou ontem.

Agora em 2020, Pacarrete é a personagem que ganha vida através de Marcélia, a “velha doida” bailarina clássica que vive em um mundo de forró.

Como ela mesma diz no filme do talentosíssimo Allan Deberton, “eu morri e esqueci de me avisar”.

Pacarrete, o filme, conta a história dessa mulher que usa pó de arroz e pinta a bochecha num vermelho redondo para ganhar vida quando sai na rua.

E ela precisa desse vermelho porque ela exala vida, ela dança, ela ensina, ela é rabugenta, ela é o vermelho na bochecha de onde passa.

Ela lava sua calçada, ela cuida da irmã, ela ouve música e ela flerta com o dono da quitanda (o maravilhoso João Miguel) que lhe devolve os encantos chamando-a de meu amor.

Mas Pacarrete sabe que esse é só um flerte em um mundo onde ela não mais pertence, apesar de fazer de tudo para, por exemplo, dançar na festa da cidade sua coreografia detalhadamente criada e ensaiada, com figurino exclusivo e os braços de cisne perfeitos.

Mas quem vai lá gosta de forró, de beber muito e mijar na calçada de Pacarrete, que se perde a paciência com a própria secretária de Cultura, imagina com homem porco mal educado.

Em Pacarrete, como por também em O Amor do Haneke, a gente vê que a velhice é uma merda. Pacarrete volta a sua cidade e tenta como pode que sua arte não morra, ela mesma tenta não ser esquecida.

E fica doida quando percebe o quanto sua guerra é em vão.

E eu posso afirmar isso, da merda da velhice, do esquecimento, das guerras em vão, porque sinto estar cada vez mais perto do meu ocaso que da alvorada da minha vida, com quase 53 anos de idade nas costas.

Pacarrete sente isso o tempo todo e ao mesmo tempo que tenta se manter jovial e relevante, vê que se distancia mais e mais do que ela considera “atual”.

Pacarrete é um filme sobre a velhice, mas é um filme de amor à vida.

Pacarrete, a personagem, é a prova de que só se morre quando te enterrarem, como dizia minha vida. E como ela mesma dizia sempre pra mim como um conselho, “descanse quando você morrer”.

Pacarrete é dessas, que vive a vida ao máximo, que cai mas sobe na ponta com suas sapatilhas impecáveis, com sua saia tutu rígida e com as pontas dos dedos sempre apontadas para cima, para contar sua história, a feliz e a triste, a de ganhos e a de perdas, a da alegria, a da solidão, todas elas da melhor forma possível.

Tudo isso por causa de Marcélia, a ATRIZ em maiúsculas, onde contamos nos dedos de uma mão as parecidas com ela, do mesmo nível, com a mesma entrega e o mesmo brilho no olhar ao criar uma personagem, ou melhor, mais uma personagem que entra para a história do cinema brasileiro como a própria personagem faria, como a bailarina impecável chegando com os 2 pés na porta, calçados com a sapatilha de ponta, obviamente.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

6 pensamentos sobre “178/2020 PACARRETE

  1. ajuda luciano… nao acho em lugar nenhum ~~ bateu o desespero
    até alugaria… mas nao esta disponivel em nenhum streming, recusando meu pinkmoney.
    onde consigo um torrent ? ~~ te suplico

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