353/2021 A MÃO DE DEUS

Se alguém tinha alguma dúvida que o diretor italiano Paolo Sorrentino (de A Grande Beleza) queria ser o Fellini, suas (e minhas) dúvidas terminaram.

A Mão de Deus, o novo filme do diretor, é uma guinada de 180 graus do seu cinema totalmente esteta.

E essa guinada nos leva às memórias de infância de Sorrentino na sua Nápoles natal, onde Fabietto ( o alter ego do diretor) vive com sua nerdice, sua timidez em meio a uma família muito potente, muito ruidosa e como toda família italiana, muito dramática.

Fabietto gosta de filmes, gosta de mulheres bonitas, principalmente de sua tia Patrizia (aliás, a única Patrizia italiana que importa no cinema em 2021, viu Lady Gaga).

Mas sua paixão mesmo era o Maradona.

E o filme começa dias antes do Maradona assinar contrato para jogar em Nápoles e virar o rei incondicional do futebol italiano e também virar o cheirador mais famoso patrocinado pela máfia napolitana e assim dar um fim em sua carreira.

Como nos é mostrado no filme, Maradona é quase considerado um santo, porque até salva a vida do próprio Fabietto, inacreditavelmente.

O diretor Sorrentino disse em uma entrevista, ao ser perguntado sobre a veracidade das histórias contadas neste filme, que o roteiro foi escrito a partir do que ele se lembra, mais de 50 anos depois de ter vivido tudo e que se alguma coisa lá no meio é inventada, se é mentira, essas mentiras passaram a ser verdades para ele.

Isso é o maior testamento de que ele copia Fellini, que sempre se disse um mentiroso contumaz, que o que interessava era como ele contava as histórias dele, que se eram mentiras, a ninguém e nem a ele interessava.

A Mão de Deus (a do próprio Maradona, quando marcou aquele famoso gol de mão) é um filme ótimo, principalmente por se passar em Nápoles, um mundo totalmente diferente do que a gente está acostumado a ver no cinema italiano.

Os personagens são familiares, as histórias também mas o cenário é totalmente estranho, o que faz uma grande diferença.

O universo da juventude de Sorrentino é digno de ser contado no cinema, ainda mais por um diretor tão competente, mas a tentativa de um Amarcord, de criar personagens maiores que a vida, passou longe.

O Fellini que existe em Sorrentino saúda o Fellini que existe dentro de cada um de nós, aquele que inventa, aumenta e se sente feliz por ter criado vários mundos novos interessantes.

E mesmo que não sejam verdadeiros, são interessantes e reais o suficiente para terem suas histórias contadas em um filme fofo como esse.

Mas nada, nadica de nada que chegue aos pés do Maestro italiano.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬

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