182/2022 VORTEX

O Fabiano de 15 anos de idade deve estar revoltadíssimo dentro do meu, sei lá, cérebro? enquanto escrevo estas linhas.

40 anos atrás eu só queria saber de artista transgressivo, que falasse de sexo, drogas e rocknroll. Ao extremo mesmo.

O Fabiano adolescente teria adorado Climax, o filme do Gaspar Noé de 2018 onde uma festa de um grupo de bailarinos é “estragada” por alguma droga que todos tomam sem saber/querer ou por um surto de histeria coletiva.

O Fabiano véio achou o filme chato pra cacete. Aquele surto não me convenceu.

O adolescente, lá nos anos 1980, teria amado este Vortex, o filme novo do cineasta argentino que vive e filma na França.

Em seu novo erro, ops, em seu novo filme, que eu estava muito ansioso para ver, o ator principal é ninguém mais, ninguém menos que Deus Dario Argento, o maior nome do cinema de horror vivo, ao lado de Françoise Lebrun, a grande atriz francesa que foi musa de Jean Eustache, Marguerite Duras e André Téchiné.

Vortex é sobre esse casal de “velhos”, como eles mesmo se chamam, casados desde sempre, ela uma ex-médica e ele um escritor que nunca o foi como desejou.

No final de suas vidas, ela sofrendo de demência e ele de problemas no coração, moram em seu apartamento atulhado de lembranças e sem espaço para terem ajuda.

Não que eles quisessem, até porque não conseguiriam muito de seu filho que, adivinhem, é viciado em heroína e falha miseravelmente em cuidar de seu filho pequeno.

Vortex, pra começar, tem uma pegadinha estilística que me incomodou muito: a tela é dividida em 2, com uma câmera acompanhando a mulher e outra câmera acompanhando o homem, o tempo todo, como se fosse importante para o espectador saber exatamente ocorre em ambas as vidas ao mesmo tempo.

Mas o que a gente vê são 2 vidas que por acaso estão acontecendo ao mesmo tempo, já que percebemos que o que um faz não tem praticamente relação nenhuma com o que o outro está fazendo.

O fim da vida deste casal é distante, mesmo eles dividindo um espaço sufocante, que é seu apartamento.

Vortex é longo. Demais. Tem mais de 2 horas e 10 minutos de duração para nos incomodar até o desespero.

Só que quando eu achava que o casal ia me fazer parar de ver o filme, entra o filho junkie piorando ainda mais a situação a ponto de me fazer ter pena do casal.

Todo filme de Noé é sobre drogas e pelas drogas. Ou melhor, não drogas, mas heroína.

Talvez esse choque que ele quer que a gente sinta funcione com a molecada de 15 anos de idade, com o meu eu de 1985 mas não pra mim hoje em dia.

O que me chocava era ver o idoso sofrendo, a idosa abrindo o gás do fogão com as janelas fechadas, a mulher na rua sem saber onde ia, o homem tomando remédio errado, isso me chocou muito.

Mas o que faz Noé: coloca o filho usando heroína em casa com o filho dormindo no quarto ao lado, mostra o filho conversando com outra junkie sobre onde comprar droga pura para injetar, porque eles não aguentam mais fumar droga tão cara.

Tive a mesma sensação neste Vortex que tive em Climax, Noé se tornou O diretor (sim, em maiúscula) do “shock value”, onde ele se importa mais com o nojo que ele vai causar ao espectador não importa vindo de onde. E se vier de um lugar mais óbvio, melhor ainda, dá menos trabalho.

Só que com essa ideia de dar menos trabalho e não se importar muito, acabou perpetrando o filme mais amoral de sua carreira.

Ele poderia ter percorrido um caminho de cinema dos grandes diretores e acabou se desviando da forma mais patética possível, como que numa viagem ruim da droga errada.

P.S.: o cartaz é lindo demais!

NOTA: 🎬🎬

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