Dois pontos importantes sobre o argentino El Jockey.
Primeiro: o filme parece, de uma forma bem bizarra, primo irmão do francês Emilia Pérez, o que me indica uma fenda criativa das boas (ou não) no zeitgeist.
Segundo: como a Argentina me indica um filme desses para concorrer a uma vaga ao Oscar de filme internacional?
Spoilers daqui pra frente, apesar de que saber o que acontece no filme não muda em nada na “experiência” que essa bizarrice vai lhe proporcionar, já que a história em si é o de menos.
Em relação ao primeiro ponto, El Jockey é a história sim, de um jóquei doidão, alcoólatra e viciado em cetamina, tão na moda nos cultos em Manaus, que um dia comandando um cavalo que vale milhões de dinheiros, perde o controle, bate num muro, é internado, foge do hospital, é preso por roubar as roupas de outra paciente, “muda de sexo” na cadeia, aprende a levitar e andar por paredes e pare um filho de sua ex namorada também jóquei.
El Jockey parece um monte de coisa que a gente já viu por aí e eu acho que o diretor Luis Ortega, do ótimo El Angel, queria exatamente isso, que seu público se identificasse pelo menos de imediato com o pop de seu filme para que o banho de estranhezas e mesmo doidices não fosse tão estranho ou doido.
Mas é.
O filme poderia ser um musical, poderia ser uma comédia, poderia ser um suspense, poderia ser um drama, poderia ser um libelo de gênero mas não é nada disso exatamente porque quer ser tudo ao mesmo tempo.
Uma crítica rasa e fácil seria dizer que o filme peca por não ter relação com a realidade porque onde já se viu um jóquei usar anestésico de cavalo momentos antes de correr montando um cavalo e se espatifar em um muro?
Ou onde já se viu o povo sair dançando por aí, ou alguém andar pelas paredes, ou alguém dar conselhos de fuga da cadeia usando metáforas de como os cavalos foram domesticados milhares de anos atrás?
Tudo no filme é muito bom se não fosse bizarro demais. E olha que eu gosto do bizarro.
Mas Ortega escreveu um roteiro digno de um David Lynch em seus primeiros anos como diretor, sendo que ele mesmo ainda precisa comer muita parrilla para ter o domínio cinematográfico do mestre dos mestres.
E em relação a indicação deste filme ao Oscar de filme internacional, só digo que a Argentina falhou miseravelmente.
NOTA: 🎬🎬1/2

