Teve um momento mais ou menos pelo meio de A Vida de Chuck, o novo filme do meu preferido Mike Flanagan, que eu pensei “ah não, tô gostando muito desse filme, tô com medo que seja meu novo La La Land”.
Lembro como se fosse ontem como eu gostei de La La Land quando assisti e saí correndo pra fazer minha resenha aqui e dizer que o filme era uma obra prima. Com o passar dos dias, com a adrenalina baixando e a realidade voltando ao meu cérebro, percebi o quanto o filme é um engodo, um belo de um comercial de cerveja hipster e pra ser bem sincero, nunca tive coragem de reler minha resenha, de vergonha.
Voltando ao novo A Vida de Chuck, durante o próprio delírio meu no filme, em uma cena de dança longa e linda e catártica, ao mesmo tempo que senti o medo da síndrome de Lala, lembrei que o filme era baseado em uma “novella” de Stephen King e de novo, o sangue voltou ao meu cérebro, lembrei de Conta Comigo, de Shawshank e relaxei.
A Vida de Chuck é contada em 3 momentos, em 3 capítulos e começa pelo fim com a morte de Chuck aos 39 anos de idade (Tom Hiddleston), coincidentemente, durante o fim do mundo.
É neste capítulo que vemos a cena da dança.
Em um momento sem mais internet, sem energia, de fim de mundo de verdade, uma garota baterista monte sua bateria no meio da rua e resolve tocar até se cansar. Mas antes que ela se canse, Chuck, que por ali passava, de terno, gravata e pastinha na mão, para e começa a dançar como um bailarino exímio e logo é acompanhado por Janice (Annalise Basso) e dão um show dançando pela primeira vez juntos mas como se tivessem ensaiado a vida toda para aquele momento.
O segundo capítulo do filme é o mais emotivo do filme, onde entendemos quem é o Chuck, onde nasceu, onde cresceu, porque ele foi criado pelos avós e porque ele sabia dançar tão bem. O Chuck adolescente é vivido lindamente pelo jovem ator Benjamin Pajak que rouba o filme.
Mesmo tendo o maior tempo de tela dos 3 Chucks, em idades diferentes, eu achei foi pouco o quanto o menino apareceu. Enxergo nele um sucesso que se não for moído pela Hollywood trituradora, vai longe e se dermos sorte, sob nos olhos.
Mike Flanagan dirige este A Vida de Chuck com uma doçura firme, com as certezas necessárias mas com o coração aberto às delicadezas da história, com a finèsse de ter um Mark Hamill como o avô de Chuck, de ter um andar proibido em casa, trancado a sete chaves, que nos gelam a alma mesmo sem mostrar o que estaríamos vendo. E ainda colocou um Nick Offerman como locutor da história, o que só engrandeceu o filme (e olha que eu odeio locução em off).
A Vida de Chuck é o Stephen King flertando com o realismo fantástico latino americano, onde as personagens não só flanam, mas dançam como se estivessem voando, sentem arrepios como se estivessem saindo de seus corpos, conversam como se estivessem olhando através de seus interlocutores e são felizes como se estivessem prestes a morrer de amor.
Mas o amor, o mundo, a vida estão acabando porque Chuck morre mas como disse sua professora na escola, todo o universo, todas as pessoas, todo o conhecimento existe dentro da cabeça de Chuck, no cérebro, nos pensamentos, no conhecimento, nas suas histórias e agora na nossa história que não vai sair do nosso mundinho depois deste filme.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬

