Ai Spike Lee do meu coração! Ai Spike Lee.
Depois de ter cagado na adaptação de Oldboy, o povo deveria ficar mais esperto com as ideias talvez errôneas de um dos meus diretores preferidos sobre transportar filmes orientais para sua amada Nova York.
Luta de Classes, em uma tradução de título bem rasa, é a versão de Spike de um filme clássico do mestre dos mestres Akira Kurosawa de 1962 chamado High And Low. Filme tão bom que concorreu em Veneza, foi indicado ao Globo de Ouro de filme internacional e é estrelado pelo icônico Toshiro Mifume como o dono de uma empresa de sapatos que pretende comprar sua fábrica de volta de seus agora sócios, usando sua economia de vida, quando o filho de seu motorista é sequestrado no lugar de seu filho.
Na versão novaiorquina temos Denzel Washinton como um milionário dono de gravadora, “o melhor ouvido da música”, que também pretende comprar sua gravadora de volta usando todas suas economias, sua cobertura absurda no lugar mais cool da cidade, sua casa de campo e sua coleção de arte negra cheia de Basquiats. Tudo resoslvido atee que ele recebe um telefonema de um homem que diz ter sequestrado seu filho e pede 17 milhões e meio de dólares em notas de mil francos suíços de resgate.
Só que como o filme original, é o filho de seu motorista que foi sequestrado por engano por causa de uma faixa verde de cabeça.
A partir da aí Luta de Classes vira um bom filme de procedimento policial, daqueles que os policiais vão para o apartamento do milionário, cheios de equipamentos que montam sobre a mesa de jantar chiquérrima mas que, por favor, “se precisarem tirar as coisas de cima, deixem do lado esquerdo da mesa”.
Denzel é o grande ator que a gente tá acostumado a ver e aqui mais uma vez ele dá show quando deixa de lado as caras e bocas do início do filme, quando seu personagem David King está tranquilo, com dinheiro para comprar a empresa de volta, feliz com a esposa incrível que é ciretora de um Museu para o qual ela pretende doar seu meio milhão de dólares anual e feliz com o filho, o “nepo baby” que pretende ser jogador de basquete (apesar de parecer ter 1,65 de altura).
Quando o reotiro muda para o thriller, para o policial, a trilha muda completamente e a gente percebe que o filme inteiro vai ser regido pela trilha, de uma forma meio até que óbvia mas totalmente efetiva, levando o visual para um patamar acima a partir do áudio perfeito, numa trilha que me lembrou muito as dos filmes do Hitchcock. Clássica e eficiente.
O motorista do milionário, pai do menino sequestrado erradamente, é vivido pelo ótimo Jeffrey Wright que vira um coadjuvante de luxo, já que é escanteado por Spike Lee de uma maneira que me deixou meio chocado até. Parece que no contrato do Denzel tinha uma cláusula que dizia “ninguém nem perto de mim”, já que o filme gira em torno dele mesmo.
O ponto alto do filme original é quando Kurosawa aperta mesmo seu ator Toshiro Mifume no momento que seu personagem precisa resolver se vai pagar o resgate milionário para soltarem o filho do seu motorista. Mesmo tendo visto o filem original, sei lá, uns 20 anos atrás, essa é a parte grandinha até do filme que me ficou na memória.
Aqui Spike Lee muda o foco para o thriller, para a perseguição, para o hollywoodianismo. E não vem me dizer que compensou porque ele colocou uma festa porto riquenha de pano de fundo da perseguição toda que na minha opinião foi um erro na mosca, inclusive. Forcou bem a barra.
Mas o que vale a pena no filme mesmo são os momentos de foco no Denzel. Não tem jeito, o cara está em outro nível. E no momento que ele tem o confronto com o personagem do ASAP Rocky dá até pena do marido da Rihanna, que parece ser esforçado mas tem que estudar muito, muito, muito mesmo ainda.
No final das contas, Luta de Classes é um filme bom, longe de seer o filme ótimo que poderia ser. E mesmo com dinheiro da Apple e da A24, o filme tem umas cenas tão mal feitas que deu até dor de dente assistindo, como um green screen do Denzel com a esposa no início tão mal recortado que parece que veio direto do povo de novela do SBT.
NOTA: 🎬🎬🎬1/2

