Nada é mesmo por acaso.
Eu acabei de ter uma das melhores aulas que já tive no Mestrado discutindo documentários, os porquês, os comos e eu assisto essa obra prima que veio diretamenete da Croácia e vai representar o país nos Oscar 2026.
Sim, Fiume O Morte é um documentário sobre um período bem bizarro da cidade que hoje se chama Rijeka mas que em 1919 era conhecida como Fiume e que meio que ainda pertencia à Itália.
FIume era uma cidade muito importante geograficamente por ficar bem na fronteira dos 2 países e o governo italiano mandou para governar a cidade um personagem no mínimo peculiar: poeta, dramaturgo, orador, jornalista, aristocrata e eventualmente um dos “fundadores” do fascismo italiano, Gabrielle D’Annunzio, que ocupou Fiume com mão de ferro, mostrando sob uma lente microscópica o que seu líder Mussolini faria com a Itália inteira logo na sequência, como se Fiume fosse um experimento de laboratório para um futuro sombrio.
O diretor croata nascido em Rijeka, Igor Bezinovic, recria neste filme, usando moradores de Rijeka, a história dos quase 3 anos em que D’Annunzio governou Fiume e tratou a cidade como se fosse a capital do mundo, bem longe de sua realidade quase insignificante, já que por exemplo, no último século a cidade já passou por 13 diferentes “donos”.
Um documentário é o gênero cada vez mais desvalorizado no cinema, ao mesmo tempo é um dos gêneros mais revolucionários por se recriar a todo tempo.
O documentário pode ser aquele clássico, das “cabeças falantes”, onde pessoas sentadas (geralmente) em seus próprios cenários (ou não), contam suas histórias ou pelo menos versões de histórias. Um tipo de fazer documentário que foi apropriado, por exemplo, pelos reality shows, quando os participantes dão suas impressões durante os episódios do que acabamos de assistir.
Ou o documentário pode ser baseadao, por exemplo, em documentos históricos que acabam sendo o fio condutor do filme, com imagens, fotos, filmes “perdidos”, objetos importantes para a história e que servem então como os fios condutores do filme, às vezes sendo guiados por uma locução em off apenas.
Uma forma bem divertida de documentário é com recriações em animação das histórias, geralmente por não mais existirem documentos físicos que comprovem alguma coisa, levando na maioria das vezes histórias “difíceis”, tristes, pesadas para um lado mais “relaxado” com o desenho animado.
Aqui o diretor Bezinovic resolveu recriar situações históricas, baseado em fotografias de época (e ele fala que existem mais de 10 mil fotografias dos quase 3 anos de ocupação de Fiume). Ele recria as fotografias com moradores da cidade atual, que nem sempre sabem quem foi realmente o fascista D’Annunzio e outros que tanto sabem que se recusam a participar do filme por odiarem tanto a lembrança do canalha.
O que o diretor faz é genial, porque ele não só dá movimento às fotos, às lembranças, como ele “continua” aquela imagem que foi coongelada no tempo, com suas recriações, o que pra mim é genial porque a partir de então ele poderia ressignificar os próprios eventos, o que é genial para mim.
Outro ponto alto do filme é que o próprio diretor é o narrador da sua história, muitas vezes se colocando no meio da própria, explicando alguns porquês com base no que ele próprio viveu com sua família que sempre esteve na cidade.
Como eu disse no início que nada é por acaso, preciso aqui confirmar essa afirmação já que Fiume O Morte é lançado no primeiro auge (porque eu tenho certeza que muitos outros ainda virão) da Inteligência Artificial dando vida a fotografias antigas restaurando, colorizando e principalmente dando movimentos aos nossos avós e bisavós.
Bezinovic fez ao vivo com maestria o que a IA agora faz em nossos celulares. A função é meio que a mesma mas a genialidade do croata é de se aplaudir de pé, principalmente ao escolher os grupos de pessoas que recriam cada foto em específico.
Posso até dizer que Fiume O Morte, que já é um dos meus filmes preferidos do Oscar 2026, é a IA feita na unha, como a gente diz no cinema, feita com alma, propósito e perfeição, o que a IA real está a bilhões de litros de água potável ainda a alcançar.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

