Site icon Já Viu?

270/2025 DAWNING

Uma historinha.

Em 1996, quando eu fui em uma das primeiras sessões de estreia de Romeu +Julieta, presenciei uma das reações mais doidas de todas da plateia lotada.

Quando Romeu encontra Julieta “morta”, a molecada que estava na platéia, quando Leo Di Caprio pega o vidrinho de veneno na mão, começa a gritar para ele largar, para ele não tomar o veneno, em uma das reações mais doidas que já vi no cinema.

Eu sempre penso nisso quando assisto um filme que a gente sabe o que vai acontecer, por qualquer motivo, tipo o filme começa com o personagem morto e a gente assiste como ele chegou lá e eu torço pra que ele não morra, não entre em tal rua, não fale com tal pessoa.

Claro que não saio gritando no cinema pro personagem não fazer o que vai fazer, mas de vez em quando eu queria ter um controle remoto no multiverso do filme, como o vilão de Violência Gratuita que ao ver seu companheiro vilão morto, pega o controle remoto da casa que eles invadiram, aponta para a lente da câmera, aperta a botão de voltar e o morto volta à vida.

A incrível surpresa norueguesa Dawning, que eu vi no #FantasticFest, é um desses filmes que dá vontade de gritar pra tela e dizer “não sai de casa, pára, volta”.

O filme é sobre 3 irmãs que vão passar uns dias na casa de campo da família porque uma delas tentou se suicidar pela segunda vez e precisa descomprimir, passar um tempo longe de tudo e de quase todos.

Claro que rola uma tensão, tudo à flor da pele, notícia ruim chega, as irmãs “cuidadoras” precisam chegar a uma conclusão do que fazer.

Mas antes de conseguirem chegar à conclusão, elas enxergam um homem desconhecido pela janela, rondando o terreno e juntas vão saber o que está acontecendo.

Antes de continuar, preciso contar um detalhe bem importante: o filme tem uma estrutura bem pitoresca, bem única eu diria.

O filme tem uma locução masculina bem didática, eu diria. Esse locutor vai contando a história da menina suicida, de suas irmãs e família. Ele meio que explica como elas chegaram lá e em um momento do filme, no momento do visitante, ele diz que elas vão morrer.

E esse nem é o meio do filme, nem é o fim do filme, é um ápice de roteiro que não é um spolier, não estraga a experiência.

E foi nesse momento que eu comecei a torcer pro roteiro mudar, foi o momento de gritar pro Romeu não tomar o veneno, de gritar pro Di Caprio sair de cena.

Mas não adiantou, o diretor e roteirista Patrik Syversen é um dos bons e mesmo dando uma de Hitchcock nos contando o final de Dawning, me deixou pregado no filme, sem que eu conseguisse piscar de tensão.

E olha que a violência do fulano que aparece do nada na casa das irmãs é a pior possível.

Dawning começa como um drama familiar meio novaiorquino, meio Woody Allen sério, frio, objetivo que me fez peerguntar o que um filme desses estava fazendo em um festival como o Fantastic.

Mas no momento que o vilão aparece e o locutor nos conta o final, eu entendi que a desgraceira ainda estava por vir.

E ela vem.

E assim descobri que Dawning é um filme de monstro (como Dolly também é um filme de monstro) e que toda aquela estética nórdica, aquela fotografia que parece ser de um preto e branco que nunca existiu no cinema, que a dinâmica das irmãs veio do mais profundo e tenso drama mas que tudo foi milimetricamente pensado para que o choque fosse o maior possível.

Que o monstro é o pior monstro.

Que quando a gente ouve que elas vão morrer, elas morrerão de formas que não poderíamos imaginar.

E que Dawning é uma das melhores surpresas do #FantasticFest e do ano, que o filme pertence a uma onda que eu estou percebendo que começa a despontar de filmes com cara de “moderninhos” mas que na verdade são surpresas potentes.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬

Exit mobile version