311/2025 O AGENTE SECRETO

Obra prima.

O diretor Kleber Mendonça é exatamente o cara que é tão hypado que todo filme dele ao estrear no Festival de Cannes vem tão cheio de elogios que eu sempre espero o pior. 

E pra minha, pra sua e pra nossa sorte eu sempre estou errado e o hype é real.

O Agente Secreto, seu novo filme, duplamente premiado em Cannes, o que é raríssimo, quase impossível, e cheio de esperanças e apostas para o Oscar 2026 é um filme muito, mas muito melhor do que eu esperava.

Obra prima mesmo.

O thriller de mais de 2 horas de duração passa de uma forma tão intensa e tão “inclusiva”, que te carrega pra dentro da história, que mesmo eu, o odiado de filmes com mais de 90 minutos, achei que poderia ter ficado mais uma meia horinha fácil no cinema.

O filme é sobre Marcelo, codinome de Armando, um homem perseguido pela ditadura militar em pleno 1977, que precisa voltar a Recife para pegar seu filho que está com os avós, para juntos irem embora do Brasil. E é esse personagem que deu o prêmio de melhor ator em Cannes para o grande Wagner Moura e que está mais que cotado para uma indicação ao Oscar de melhor ator.

Em meio ao carnaval frenético e alucinante da cidade, Marcelo vai morar em um prédio/refúgio onde encontra outras pessoas com codinomes que também estão fugindo, juradas de morte. Todas elas vivem sob a administração mais maternal possível de dona Sebastiana, a melhor personagem de O Agente Secreto, vivida magistralmente pela atriz Tânia Maria, que já foi cataputada a possível concorrente ao Oscar de atriz coadjuvante pela Variety. Com razão.

O predinho, a nova casa de Marcelo, é seu porto seguro enquanto ele divide seu tempo trabalhando na Secretaria da Segurança Pública e sempre que possível perto de seus sogros e seu filho, ou na casa deles ou no cine São Luiz, onde seu Alexandre, o sogro, pai da companheira morta de Armando/Marcelo, é chefe dos projecionistas.

O roteiro de O Agente Secreto é de ser estudado em Mestrado Profissional. Os signos do cinema de Kleber Mendonça estão todos ali, na cor do fusca, no predinho familiar, nos close silenciosos hitchcockianos, no horror de John Carpenter, que aqui chega a níveis explícitos, no drama político mas principalmente familiar e na cereja do bolo que é o som ao redor de Marcelo, no carnaval, no som dos filmes projetados, de Tubarão, de A Profecia, do final dos anos 1970 quando tudo estava prestes a ruir, o que lá já se via nesses e que do outro lado do atlântico vinha acontecendo com a explosão do punk inglês.

A revolta tinha começado. 

Ou melhor, a revolta que já tinha começado estava tomando um tamanho que faria tudo mudar.

Em alguns lugares mais rapidamente mas por aqui tudo demorou mais a chegar.

Enquanto isso a gente via delegados e policiais violentos que saíam com “estrupadores” presos no camburão para levaram uma lição.

Vemos o delegado achando que o alemão judeu alfaiate na verdade era um soldado nazista, o que lhe cai melhor em seu viés de extremista neo nazi pardo.

Vemos a rica sendo interrogada às escondidas pela polícia por ter deixado o filho da empregada morrer, em um meneio ao caso atual semelhante.

Vamos matadores de aluguel contratados à luz do dia “por um punhado de dólares” para executarem seu serviço também à luz do dia sem a menor cerimônia.

Mas vemos também a articulação de um submundo político para tirar Marcelo/Armando e seu filho do país antes que seja tarde, encabeçado por Elza, vivida por uma Maria Fernanda Cândido que olha, já uma das nossas melhores atrizes em atividade.

O encontro em uma sala do cine São Luiz é das coisas mais bem filmada e mais emocionantes dos últimos anos.

Ali não é o Marcelo, o codinome, se abrindo mas sim o Armando, contando sua história e contando como um canalha, um empresário ligado à extrema direita acaba com um grupo de pesquisas de uma universidade do “norte/nordeste”, comandado por Armando, “cabeludo comunista”, que deveria gastar tempo e dinheiro “tentando resolver o monte de problemas que seu lado do país tanto tem e deixar as pesquisas para o sul que já está bem estabelecido”.

Ainda Estou Aqui abriu um precedente para mim que é: se eu choro horrores em um filme brasileiro, ele com certeza ganha Oscar.

Eu chorei horrores em O Agente Secreto, talvez mais ainda que no filme do Salles e só por isso o filme deveria ganhar uns 2 prêmio.

Nessa sequência toda do cinema, quando Armando conta pra Elza sua história, e lembre-se que Elza está abalada porque acabou de assistir A Profecia e “mesmo não sendo católica”, ela diz que o filme a abalou muito, inclusive não só ela, mas também uma mulher que sai da sala incorporada, ao que seu Alexandre, o sogro projecionista diz que isso tem sido comum.

No meio de seu depoimento, armando/Marcelo chama seu Alexandre (Carlos Francisco, monstro desconhecido pra mim) para ouvir o que ele tinha a dizer e daí conta a história quando Fatima, companheira morta de Armando, filha do seu Alexandre, acaba com o empresário entreguista em um jantar e diz que homem de verdade é seu pai, homem simples, honrado, amoroso, cuidadoso “e não um filho da puta como o canalha e vai tomar no meio do seu cu”, em um dos ápices do filme entregues de bandeja pela maravilhosa Alice Carvalho.

Quando seu Alexandre, de olhos marejados, pergunta a Armando se ela tinha dito aquilo mesmo, eu comecei a soluçar no cinema. Depois disso, toda vez que seu Alexandre aparecia eu chorava, achando que era “dica” para alguma desgraça que estaria por vir.

Como disse, O Agente Secreto é um thriller com coração, com sentimentos profundos, sem cair no sentimentalismo barato ou na pieguice.

Lembra da Doris Day cantando Que Será, Será? em O Homem Que Sabia Demais do Hitchcock para que seu filho que sumiu ouvisse sua voz e desse sinal de vida?

É esse o sentimentalismo que a gente vê em O Agente Secreto, nos encontros com o seu Alexandre, nos encontros com a dona Sebastiana, no pós sexo com Claudia (Hermila Guedes gigante), nos desenhos que Fernando envia pro pai Marcelo/Armando, no carnaval de rua que atravessa o filme, na fachada do cine São Luiz, é no telefonema para “o carpinteiro”, é na Recife que Kleber Mendonça criou em seu universo cinematográfico tão particular e tão especial que eu já a reconheço como uma cidade diferente da Recife da vida real.

Quer prova melhor que essa de um cinema gigante, de uma cinematografia parruda, de um Autor com A maiúsculo?

P.S.: eu falei alguns meses atrás que O Último Azul era o melhor filme brasileiro de 2025, mas que eu ainda não tinha visto O Agente Secreto, e aqui confirmo que O Agente ganhou no pescoço esticado essa corrida linda.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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