O queridinho iraniano-francês Foi Apenas Um Acidente, o novo filme do grande Jafar Panahi, dizem as más línguas, foi o filme que tirou a Palma de Ouro do nosso O Agente Secreto no Festival de Cannes deste ano.
Este é também o filme que representa a França no Oscar 2026 e que como sabemos, vai ser o filme que pretende “reagir” à vergonha de Emilia Pérez de 2025, o representante francês no Oscar que prometia levar muitos prêmios, inclusive e principalmente o de filme internacional que veio para o Brasil com Ainda Estou Aqui.
Porque Foi Apenas Um Acidente é um filme de vingança, esta seria a vingança perfeita se não fosse por um detalhe: o filme não é isso tudo.
Eu entendo a Palma de Ouro ao filme, um ato político importante principalmente porque Jafar Panahi é um diretor odiado pelo regime iraniano, proibido de filmar no país sem autorização, o que não o impediu de fazer um dos meus preferidos dele Sem Ursos, que ele dirigia por mensagem de texto.
E veja bem o que eu escrevi: este filme iraniano vai representar a França no Oscar 2026. O Irã mandou outro filme para a seleção e dizem, eu ainda não vi, é bem parecido com este do Panahi.
Foi Apenas Um Acidente, como eu disse, é um filme de vingança.
Por uma obra do destino, um homem sofre um pequeno acidente com seu carro em uma noite e quando o leva para consertar, é “reconhecido” por um dos mecânicos como o homem que o torturou por 5 anos quando ele foi prisioneiro do Isis. O mais pitoresco é que o mecânico o reconheceu pela voz e por ele mancar, já que tem uma prótese na perna.
O mecânico, claro, vai atrás do homem, consegue capturá-lo e prendê-lo em seu carro e vai atrás de um conhecido que também passou anos preso para ajudá-lo a matar seu algoz.
O amigo mais ponderado diz que não quer se envolver com isso e diz para o mecânico procurar uma mulher que também foi torturada e que ela poderia confirmar se é mesmo o homem e o que fazer com ele.
A mulher é uma fotógrafa que está tirando fotos de casamento de uma amiga e seu noivo, amiga que também foi torturada e que quer vingança rapidinho. Mas ainda falta um personagem importante, um outro ex torturado que poderia com certeza reconhecer o torturador/traidor.
Veja bem, todas essas pessoas que ficaram presas estiveram sempre vendadas e só lembram de sons (do mancar, da respiração), de cheiros (do suor) e da voz dos algozes. E Panahi nos coloca dentro desse périplo onde as antigas vítimas, que sempre serão, tentam de qualquer forma chegar a conclusões: primeiro se o cara é quem eles acham que seja e segundo, o que fazer com ele, se eles se rebaixam ao nível dos animais assassinos ou se deiam ele viver com mais culpa do que talvez quem sabe sintam.
Foi Apenas Um Acidente é muito bom, as discussões que Panahi cria a partir desse exército de Brancaleone iraniano são muito pertinentes, principalmente quando pessoas “comuns” chegam a um nível de possibilidade de poder extremo onde conseguem lidar com a vida humana sem sentirem culpa ou talvez arrependimento (segunda vez que falo do “talvez” arrependimento, veja só).
O problema do roteiro é que por muitas vezes as situações são quase desenhadas de tão explicadinhas. Faltou uma sutileza no contar de uma história tão profunda e tão difícil.
Mas até aí tudo bem porque a gente vai se acostumando com as personagens e fica esperando as próximas trapalhadas políticas e filosóficas de pessoas tão diferentes que só tem em comum o sofrimento extremo.
O problema maior do filme é que o ponto de virada, que deveria ter sido nababesco, apocalíptico, apoteótico, é tão sem graça que eu achei que nem era a tal virada mas sim, era.
E decepcionou muito.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬

