030/2026 HAMNET

Logo que estreou no cinema eu assisti Hamnet e saí da sala escura achando que não era possível que esse filme tinha sido realizado.

Primeiro achei que tinha delirado durante as 2 horas de exibição e talvez isso tenha acontecido mesmo.

O mais recenete filme da minha preferida Chloé Zhao, mas daquela Chloé de Domando o Destino, é uma obra de arte que te transporta, ou pelo menos me transportou a outra dimensão.

Muito por causa da direção de fotografia do meu preferido Łukasz Żal (de Zona de Interesse, o filme do século) que com sua câmera na mão chega nos melhores closes que a maior de todas Jessie Buckley já foi exposta em sua carreira. Inclusive a mesma direção de fotografia do nosso querido Adolpho Veloso em Sonhos de Trem que também abusou maravilhosamente da câmera na mão (e da hora mágica), que o levou a ser indicado ao Oscar de Melhor Direção de Fotografia.

Todo esse preâmbulo técnico para falar do filme mais sensível, íntimo, mágico dos últimos tempos. Pra falar de como Zhao conseguiu filmar um história de amor, de família e transformá-la em uma ode ao universo, à transcendência, à perfeição artística, ao apanhar e levantar e dar a outra face mesmo que você não queira.

Hamnet é o filho que William Shakespeare (Paul Mescal, que quase não importa no filme, acredite se quiser) tem com sua mulher Anne Hathaway (no filme, Agnes).

Hamnet é gêmeo de Judith, que parecia ter nascido morta mas que no colo de sua mãe enganou a morte e sobreviveu com força e vigor. Sim, o nome é com N mesmo, variação de Hamlet e por isso mesmo a obra prima de Shakespeare, tem essa “piadinha” trágica.

Shakespeare era um professor de uma cidadezinha que era uma vila que era na verdade um vilarejo chamado Stratfor-upon-Avon, não muito longe de Londres. Um cara infeliz por sofrer nas mãos de um pai que o maltratava o tempo todo por ele ser professor e querer ser escritor e não um homem que teria um ofício… de homem.

Quando Will se apaixona e se entrega a Agnes, seus olhos brilham, sua pele ganha viço e ele se torna o homem de verdade que ele sempre quis ser.

Ela engravida, nasce Susanna e 2 anos depois os gêmeos.

Quando as crianças cresceram um pouco, Shakespeare começa a pirar de verdade e sua mulher Agnes diz para ele ir pra Londres tentar realizar seu sonho porque ninguém o aguentava mais. Bom, não com essas palavras, mas a gente vê isso no filme.

Agnes, desde sempre, era uma mulher sensata, aqui muito ligada à natureza, sabedora e conhecedora das ervas, dos cheiros, dos unguentos e de entender uma pessoa só por segurar sua mão.

Como sua mãe, Agnes tinha um falcão, ia para o meio do mato ter seus filhos, entendia o que a natureza mostrava e lhe dava todos os dias e por isso, em vários momentos do filme, eu achei que ela seria chamada de bruxa.

Hamnet, o filme, é o filme da Agnes, o filme que a diretora e co-roteirista Chloé Zhao joga em nossas caras, em nossos corações, em nossas mentes, a história de Agnes, do primeiro ao último frame do filme o rosto do amor, o rosto do que a mulher representa na vida, o arquétipo feminino em toda sua plenitude.

Por mais que a gente chore em Hamnet, e eu chorei como um bebezinho na primeira assistida e chorei mais ainda na segunda porque começava a chorar de antecipação ao que eu já sabia o que ia acontecer, por mais que a gente chore as lágrimas são são tão sofridas, são mais solidárias, mais atenciosas e elas escorrem por nossos rostos como uma oferenda à vida dessa mulher que está em nossa frente numa tela gigante de projeção.

Culpa de quem? Da maior de todas, da minha preferida desde sempre, a irlandesa Jessie Buckley.

Eu tenho certeza absoluta que Hamnet não seria o mesmo se fosse outra atriz a fazer o papel de Agnes.

Jessie tem não só o physique du rôle, o porte físico que o papel exige, mas sua extensão dramática é de fazer inveja às Fernandas e Merryls da vida.

Jessie não é aquela personalidade que um dia já foi atriz. E acho que nunca será.

Jessie não é a estrela milionária que faz comercial perfume e se senta na primeira fila de desfiles de moda com roupas “inusáveis”. E acho de novo que nunca será.

E não que isso tenha algo de errado, muito pelo contrário, tomara que ela se sente ao lado da Tilda e da Nicole no próximo desfile da Channel com a Fernanda Torres.

Mas como a brasileira Fernanda, Jessie é a irlandesa estranha, a atriz que entrega tudo e mais um pouco, que faz o papeis mais bizarros nos filmes mais estranhos e só ela poderia fazer o que ela fez com a “mulher do Shakespeare”, de quem ninguém tinha ouvido falar antes a não ser que ela tem o mesmo nome da Anne Hathaway que é casada com um cara que é parecido com o próprio Shakespeare.

Jessie transforma a dor do roteiro de Hamnet em lágrimas, em soluços, em gritos de desespero e em sorrisos. Aliás, os sorrisos de Jessie foram a minha derrocada lacrimal no filme. Os momentos finais de Hamnet me pegaram tão de surpresa que eu achei realmente que estava delirando, que tudo o que eu assistia era ruim, que era uma farsa o filme porque nada poderia ser tão forte e poderoso quanto o que eu assistia na telona.

Hamnet é um acontecimento, uma viagem, um transporte através do tempo, ou melhor, uma máquina do tempo a uma história que talvez nunca tenha existido. Ou talvez sim, como saberemos?

E essas não são as melhores?

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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