A cena mais fofa e “divertida” de A Cronologia da Água é quando a personagem Lidia (Imogen Poots, de outro mundo de boa) diz para Phillip, um cara que ela vê tocando violão no gramado da faculdade: nossa, você canta muito bem! Ao que Phillip responde: você devia ouvir meu pai cantar!
Phillip, com quem Lidia vai se casar em breve, é vivido por Earl Cave, cujo pai é o Mestre dos Mestres Nick Cave.
Fora essa piada interna fofurice, a estreia na direção da divinha Kristen Stewart é o filme mais deprê (no bom sentido), mais pesado (no mal sentido, o que é bom) e mais violento dos últimos tempos.
O filme é baseado nas memórias da escritora americana Lidia Yuknavitch e parabéns pra ela por ter sobrevivido ao que a gente assiste nesse filme.
O sofrimento de Lidia vem de berço, literalmente, ao presenciar sua mãe (Thora Birch) sofrendo nas mãos do pai abusador (Michael Epp) que logo passa a também abusar da própria filha, um desgraçado de marca maior, controlador, que não quer a filha fora de casa, que se esforça como nadadora na escola para conseguir uma bolsa de estudos em alguma universidade para perseguir sua vontade de escrever.
Só que imagine essa história regada a sexo, as piores drogas e algum rocknroll. Por isso que disse, parabéns para a escritora por ter sobrevivido os piores pesadelos possíveis.
O ponto alto da direção de Kristen foi ter filmado essa história de selvageria do dia a dia como se fosse a história mais fofa possível, cheio de closes, de imagens difusas, com muita natureza, com uma locuçnao em off, por cima das cenas, que eu achei em princípio que seria a ruína do filme, mas não, ajuda a dar um ar de tranquilidade à história que por si só é muito intensa, pra ser delicado.
Lidia, a adolescente, a jovem adulta, a mulher, não mede esforços para sobreviver e o melhor, quando ela descobre que pode viver como quer, e não só sobreviver, o que é bem diferente, ela inconscientemente chega à conclusão de que ela está certa e que, como dizia minha avó Emília, “errada está a Bíblia”.
Lidia se joga cada vez mais, experimenta tudo, não tem pudor, não tem vergonha, se arrepende depois, e nem sempre, até porque ela não necessariamente pensa antes de fazer para se arrepender depois. Ela vai e faz.
Não sabendo que era impossível/proibido/desaconselhado, ela foi lá e se fudeu.
E se fudeu de novo, e de novo e de novo.
Tudo pra criar calo, pra ter história pra contar.
E bem no começo do filme, tem uma frase simbólica: “escolha bem suas lembranças, as histórias que você vai querer contar um dia, porque as pessoas vão lembrar de você por isso”.
Lidia escolheu bem.
E ai de quem reclamar.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬

