Ontem, quando resenhei Red Riding, a nova versão super indie de horror da Chapeuzinho Vermelho, esqueci de falar uma coisa que geralmente falo mas sempre penso que é quando uma história muito doida e impossível, vira motivo para a pessoa que a conta e jura de pés juntos que aquilo é verdade, seja considerada louca nível vamos internar agora.
Red, a chapeuzinho vermelho do filme, filha da junkie que perdeu metade do braço arrancado pelo lobo mau mas que tentava se convencer que na verdade perdeu em um acidente de carro, era a louca, a viciada em heroína. E não que se viciou em heroína para suportar o peso da história real.
É o mesmo que vai acontecer com Red, a agora herdeira da fortuma da avó milionária que tinha um lobo mau em seu quintal. Quem vai acreditar na história real, malucona demais.
Neste filme de hoje, Obex, algo parecido acontece.
Não com lobo mau e vovozinha devorada mas sim sobre a realidade, sobre viver situações tão extremas que para o “público em geral”, o que te acontece em outros níveis de consciência e percepção, na verdade só tem uma explicação racional: você é louco.
Conor Marsh (vivido por Albert Birney, que também escreveu e dirigiu o filme), o anti herói de Obex, já vive em uma realidade paralela na época do VHS, da impressora matricial, do lançamento do primeiro A Hora do Pesadelo, que ele assiste em casa porque Conor basicamente não sai de casa se ele puder.
Tanto que sua vizinha, que a gente nunca vê, faz as compras de supermercado pra ele, por exemplo. E Connor ainda liga pra ela no meio da noite reclamando que ela comprou cheddar branco quando ela sabe que ele só gosta do amarelo.
Conor é um artista digital, ele faz desenhos de pessoas no computador com letras e símbolos, imprime na sua impressora barulhenta, envia pelo correio e cobra 5 dólares por sua arte.
Ao folhear uma revista de informática, sim, elas já existiram, ele vê o anúncio de um jogo novo, Obex, que promete uma revolução.
Ele compra, aguarda ansioso o disquete e quando finalmente começa a jogar, sua realidade começa a mudar.
E chega uma hora que Conor perde a sensação do que é real e não, de onde ele está ou onde deveria estar.
Conor entra em Obex e sua vida vira o game. Ou o game vira sua vida. Entende?
Eu fiquei pensando: será que é por causa do joguinho ou será que foi só um input errado em seu cérebro que desencadeou toda uma percepção bem alternativa da realidade que lá já estava só esperando o momento certo para desabrochar.
Obex o filme não é ruim. Mas também não é bom.
É um longa que estreou em Sundance o ano passado com um certo hype que não foi correspondido porque o roteiro não se sustenta muito. Obex seria um curta digno de prêmios grandes mas não.
Enquanto assistia essa ficção científica esquizofrênica eu lembrei muito de Pi, o primeiro e mais incrível filme do Darren Aronofsky, também uma ficção científica bem esquizofrênica, também em preto e branco, também com um personagem muito propício a se perder em sua “loucura” própria mas que lá, no Pi, a história era bem parruda, com um roteiro interessante que flertava com filosofia, religiosidade, matemática e até um thriller barato meio noir.
Em Obex faltou essa profundidade cinematográfica, faltou a esperteza e inteligência do roteiro não ser só sobre o joguinho e o doidão, mesmo tendo um cachorrinho fofo como parte importante disso tudo.
NOTA: 🎬🎬🎬

