143/2026 GAUA

Meu amigo Ary França vai ficar feliz ao ler aqui que este folk horror #alertafilmão me lembrou muito o estoniano November, um dos maiores filmes deste século.

Gaua é um horror basco, falado em Basco, o que é o máximo, sobre lendas bascas e eu tô repetindo tanto o basco porque a região Basca, do norte espanhol, é a minha região preferida daquele país, um dos lugares mais incríveis que já conheci na vida.

Gaua é não só um horror, é um horror caipira que se passa no século XVII no meio do mato basco (ou vasco) em uma época de caça às bruxas.

Kattalin logo depois de envenenar o marido escroto, foge para a floresta enquanto sofre um pouco do delírio do cogumelo que ela teve que engolir da comida envenenada também mas que logo depois vomitou.

Ela sente a presença do marido já morto atrás dela e delira a ponto de ter um monstro que vai crescendo e a engole com sua boca de dragão endemoniado.

Mas foi só um delírio de início de filme, de história, porque logo Kattalin encontra 3 mulheres sábias que vivem no meio da floresta longe dos homens, como boas bruxas que são.

Até agora, se você leu a resenha do filme de ontem, você deve ter percebido várias semelhanças.

E essa é a prova que as lendas acabam sendo representações do zeitgeist local e universal. E as histórias das 3 bruxas que vivem nessa floresta ajudam muito a dar a devida importância a este fenômeno.

A história das mulheres sábias bascas é bem parecida com a história das bruxas holandesas de Heresia e de muitas outras lendas ao redor do mundo, histórias que nascem para contar que sim, as mulheres, mesmo perseguidas, são as donas do conhecimento desde sempre.

A partir desse encontro na floresta, Gaua (A Noite) mergulha de cabeça em uma atmosfera onde o real e o folclórico se entrelaçam de forma quase indissociável. Kattalin, que buscava apenas fugir das consequências de seu ato libertador (porém fatal), acaba sendo acolhida – e de certa forma testada – por essa trindade de mulheres que personificam a força ancestral da terra. O diretor [Paul Urkijo Alijo não tem pressa em revelar os mistérios. A narrativa avança como o cair da noite na própria floresta: lenta, fria e absolutamente inevitável. Vemos o processo de aprendizado e transformação de Kattalin, que precisa desaprender o medo imposto pela sociedade patriarcal e religiosa da época para, finalmente, abraçar o poder sombrio e curativo que a natureza oferece.

O que eleva Gaua de um simples conto de bruxas para uma obra cinematográfica de peso é, sem dúvida, a sua direção de arte e o design de produção. É aqui que a comparação com November se faz mais justa e evidente. Não estamos falando de um horror limpinho de estúdio. A sujeira está debaixo das unhas dos personagens, o frio úmido das cavernas bascas atravessa a tela. A construção do “mato basco” é claustrofóbica e majestosa ao mesmo tempo; as árvores tortuosas e a névoa constante servem não apenas como cenário, mas como entidades vivas que observam aquelas mulheres.

A direção de arte é fundamental para traduzir o universo mágico basco, conhecido por sua mitologia rica (como as sorginak, as próprias bruxas, e a deusa Mari). Os objetos de cena, as cabanas erguidas com pedras brutas, os altares improvisados com ossos e raízes, tudo carrega uma textura visceral. As roupas esfarrapadas que logo dão lugar a peles e tecidos tingidos com elementos naturais mostram a jornada de Kattalin se despindo da civilização. Quando os inquisidores inevitavelmente se aproximam, representando a ameaça do mundo “civilizado”, o contraste visual é gritante. A rigidez dos uniformes e cruzes bate de frente com a fluidez terrosa do covil das mulheres.

O delírio fúngico do início é apenas o primeiro gosto de uma estética que abraça o bizarro e o grotesco não pelo susto fácil, mas para ilustrar uma conexão primeva com o mundo. Os rituais não são espalhafatosos, mas fundamentados no barro, no sangue e na fumaça. É um cinema de imersão tátil. Ao fim de Gaua, percebemos que a verdadeira bruxaria do filme foi a capacidade de usar cada elemento de cena e luz para nos transportar àquela fogueira secreta no século XVII, provando que o folclore basco é um terreno fértil e aterrorizante que o cinema moderno precisa explorar mais. É um filme para ser sentido na pele, de preferência no escuro absoluto.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

Leave a Reply