Eu lembro quando o Earth, Wind & Fire fez show no Brasil. Eu era molequinho mas na época quase nenhuma banda gringa tocava por aqui, então só eles apareceram em tudo quanto é lugar. E a banda era gigante, era só o que a gente ouvia também. E eu lembro porque meu pai sempre foi o cara mais musical possível e me contava histórias das bandas e das músicas desde sempre. E com certeza daí veio meu amor pela música também.
Neste documentário dirigido pelo Questlove, tem imagens dessa viagem deles aqui pro Brasil, quando no filme dizem que eles viraram grandes em casa e no resto do mundo também.
Gosto muito da banda mas vi em Earth, Wind & Fire (To Be Celestial vs That’s the Weight of the World) eu não sabia nada deles. E a história é malucona demais, eu amei muito saber, principalmente quando os convidados do filme que vão de H.E.R., Lionel Ritchie a Obama e Flea, uma coisa que gosto muito em documentários que é mostrar o impacto que o “personagem” causou em pessoas no mínimo interessantes.
O Questlove, aliás, acerta na mosca de novo. Assim como ele fez no ótimo Summer of Soul, a direção aqui não se contenta em montar um “artigo da Wikipédia em vídeo”. Ele cava fundo nos arquivos para mostrar que o Earth, Wind & Fire não era apenas uma máquina de fazer hits para tocar em festas de casamento; era um verdadeiro movimento espiritual e cultural. A gente mergulha na mente absolutamente brilhante de Maurice White e descobre como ele arquitetou cada detalhe da banda.
É muito louco ver como ele pegou o jazz, o funk, o soul e ritmos africanos e envelopou tudo isso em uma estética ufológica, astrológica e baseada na egiptologia. Eles não subiam no palco, eles faziam um ritual de positividade.
E é aí que o documentário ganha aquela camada de profundidade que justifica o subtítulo. O filme equilibra muito bem o “To Be Celestial” — os shows megalomaníacos com baterias levitando, roupas brilhantes e truques de mágica que deixavam o mundo de queixo caído — com o “Weight of the World”, o peso de carregar essa estrutura mastodôntica. A obra não esconde os perrengues, o esgotamento físico, as barreiras raciais que eles tiveram que arrombar na indústria fonográfica da época e a pressão de ter que entregar alegria e transcendência enquanto o mundo real (e a própria banda, internamente) passava por momentos bem pesados.
Ver imagens daquele show deles aqui no Brasil no meio de toda essa loucura cósmica dá um baita orgulho e uma nostalgia absurda. Ouvir Flea, Obama e até a molecada mais nova como H.E.R. dissecando a genialidade dos arranjos e a complexidade dos metais só prova o que quem cresceu em uma casa cheia de discos já sabia: a música deles tem uma energia que simplesmente não envelhece.
Você não precisa ser o maior fã de funk ou soul para curtir o filme, basta gostar de histórias sobre pessoas que enxergaram muito além do seu tempo.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬

