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204/2026 A ODISSEIA

A Odisseia é novo “evento cinematográfico” do Christopher Nolan, porque tudo que ele faz acaba sendo maior que “só um filme”. E pra ser sincero eu não tenho problemas com isso, eu acho até legal quando diretor, produtores, a indústria pesada hollywoodiana transformam um filme em um evento. Quer dizer, acho legal médio porque eu sempre digo que o quanto gasto nesses casos, pra mim é sempre lavagem de dinheiro.

Não sei quanto custou esse A Odisseia e o caso nem é esse, já que obviamente custou muito, muito dinheiro. Também não interessa o quanto vai render de bilheteria, a notar pelo fato de que cinemas iMax na cidade de São Paulo estão com 2 semanas esgotadas de sessões deste filme, que foi rodado em iMax com equipamento que o Nolan inventou e que para se ter a experiência completa, como ele chama, a gente deveria assistir em um dos 40 e poucos cinemas equipados para tal existentes no mundo.

O texto não é sobre nada disso.

Eu saí do cinema ontem meio decepcionado com o Nolan porque essa Odisseia não é a obra prima que vinham prometendo. Muito pelo contrário. O filme é bom, bem escrito, bem montado, mas fora alguns detalhes geniais, A Odisseia é um filme caretão tecnicamente falando.

Não vi (quase) nada que me fizesse suspirar em nenhum de seus 173 muito longes minutos, não vi recriação de linha temporal incríveis, não vi paralelismo temporal em camadas que tirassem o meu chão, também não vi uma fotografia deslumbrante e nem movimentos de câmera revolucionários (tudo bem que a câmera iMax é um trambolho gigante, mas problema de quem decidiu filmar com aquilo), porque o filme parece mesmo ter sido feito com uma câmera (ou mais câmeras) incômodas de se trabalhar, onde daria para colocar num carrinho e olhe lá.

Apesar disso, coisinhas, detalhes (nem tão pequenos) me fizeram sorrir pelo filme.

Em um filme masculinaço, sobre uma história muito masculina, que deu meio que origem ao termo “jornada do herói”, quem rouba o filme é Anne Hathaway, que vive Penélope, a mulher de Odisseu, que fica 20 anos esperando o marido voltar da guerra, tecendo um sudário de dia e o desmanchando de noite, para passar o tempo enquanto cuida de Ítaca e do filho Telêmaco (o fraquinho e irritante como sempre Tom Holland).

Anne em A Odisseia mostra que se uma atriz (ou um ator, quem sabe) quiser e for bom o suficiente, consegue alcançar patamares que destoam do normal, do esperado e do resto que a gente vê nesta odisseia cinematográfica.

Ela sofre, chora, sente saudade, dá bronca, comanda, grita, é sábia, é amorosa, é muito mais que tudo isso e a gente sente todo o escopo de atuação, toda a “variedade” de rostos, de minhas de expressão, de entonação de voz, de sentimento no olhar e principalmente de fisicalidade que Anne Hathaway entrega.

Dá até vergonha de vê-la contracenando com o homem aranha, tadinho dele. (e aí me pergunto: qual o poder de Nolan em ter que engolir um Tom Holland num papel desse tamanho? E pior, se foi escolha dele mesmo, que tipo de diretor é esse?).

Comparável à Penélope de Anne Hathaway está uma das maiores de todas, minha preferida Samantha Morton vivendo Circe, a bruxa-deusa, que transforma os marinheiros de Odisseu em porcos e os faz viver sua verdade, na melhor sequência do A Odisseia, a sequência de horror, com os melhores closes do ano de bruxa moldando as caras dos porcos enquanto os marinheiros vão perdendo suas formas humanas.

E não pense que a bruxa tem verruga no nariz e voz diabólica: a cena da conversa de Circe com Odisseu à mesa, onde ela tenta fazer com que ele coma a carne “envenenada”, mostra o quanto Samantha Morton é necessária, desde sempre, no cinema.

Prevejo Samatha e Anne sendo indicadas a tudo quanto é prêmio nos próximos meses. E nem é “prevejo”, é óbvio. Vão tentar mandar o Matt Damon indicado e se bobear até o homem aranha num coadjuvante mas outro que rouba a cena quando aparece é John Leguizamo como o cego criador de porcos e melhor amigo de Odisseu. Claro que Damon tá bom, ele é um ator bom e não tem como estragar nada em um filme deste tamanho mas seu Odisseu é uma nota só. Ainda mais comparado com o turbilhão de emoções de Penélope/Anne, o cara fica esquecível, prativcamente.

Parece que esses personagens secundários mas muito importantes para a história acabaram recebendo o melhor texto do roteiro de Nolan, meio que como forma de homenagear personagens e os próprios intérpretes.

Outro ponto alto do filme é a trilha do meu sueco preferido Ludwig Göransson que continua trabalhando com Nolan, que já venceu 2 Oscars de melhor trilha, para Oppenheimer e este ano para Pecadores e que aqui continua criando um universo paralelo ao filme que na verdade acaba se encaixando perfeitamente à história sendo mostrada só que a levando a outros níveis de percepção com sons inesperados, surpreendentes e quase sempre inovadores.

Quando ali acima eu falei da sequência a Circe ser o momento filme de horror de A Odisseia, eu fiquei pensando depois que saí do cinema como teria sido esse filme se o Nolan o tivesse transformado em uma história de horror, já que o Odisseu, um rei, passou 20 anos fora de casa tentando invadir Troia, e depois voltar pra casa e não chega nunca porque passa pelos piores tormentos que um homem consegue passar, já que, alerta de spoiler, os únicos anos que ele vive “feliz” são os 7 anos que ele viveu drogado de flor de lótus pela malucona da Calypso.

Sereias do mal, claro, cíclope, monstros marinhos, 10 anos morando na praia construindo o cavalo de Troia, 7 anos drogado de lótus morando com uma ninfa(maníaca), navios destruídos por soldados enormes, fome, sede e por aí teria ido um belo de um roteiro de horror. Nada é fácil, nem o que ele deixa pra trás, nem as outras histórias, todo mundo sempre morre, ele vai até o inferno, até Hades, falar com os mortos, se explicar pra gente que morreu sob o seu comando.

Não é drama, é um épico de horror.

E seria o maior épico de horror da história!

Imagina que lindo que seria.

Mas não foi.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬

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