Depois de 20 minutos assistindo La Gradiva eu não estava entendendo porque eu não estava achando o filme o máximo que todo mundo diz ser.
Só que 2 minutos depois eu caí de joelhos.
La Gradiva é o primeiro longa metragem da roteirista e diretora Marine Atlan e saiu premiadíssimo do Festival de Cannes.
O filme é sobre um grupo de adolescentes franceses que em viagem de final de curso, vão para Pompéia, a cidade italiana que “sobreviveu” às cinzas a às pedras-pomes do Vesúlvio.
Ciceroneados por sua professora de latim e bela contadora de histórias, quanto mais os jovens passeiam pela cidade, pelas ruínas, pelos afrescos, pelas esculturas, eles vão se aproximando e sendo tragados pela “gradiva”, a teoria criada pelo arqueólogo Norbet Hanold, protagonista da obra La Gradiva de Wilhelm Jensen, de onde Mariane adaptou para criar seu filme.
Norbert, ao pesquisar a Pompéia soterrada por cinzas, se apaixona pela imagem de uma mulher que aparece em um dos baixo-relevos romanos semi destruídos da cidade e atravessa o mundo para encontrar e obviamente ao chegar lá descobre que o delírio e seu inconsciente tomaram lugar do seu lógico.
Tanto que Freud escreveu o hoje célebre ensaio psicanalítico Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen.
No filme, Pompéia, os afrescos, os baixos-relevos, o clima da cidade, a história, a possibilidade do ressurgimento das cinzas, faz com que os adolescentes saiam mais de seus casulos, se descubram, cresçam, se percam mais ainda porque afinal são adolescentes.
O filme me pareceu um primo irmão bem próximo do La Chimera da Alice Rohrwacher, eles com certeza vivem em um mesmo universo lírico-profundo, cheio de idiossincrasias e incertezas, onde seus personagens acham que sabem tudo, como nós da vida real, e aos poucos, ou não tão aos poucos assim, descobrem que suas certezas não são tão certas assim.
Aqui os jovens, vividos por não atores, o que dá ao filme uma dimensão maior de delírio de (ir)realidade, esses seres que discutem política, falam sobre sexo sem saber direito o que dizem, que fazem sexo sabendo menos ainda o que estão fazendo, que bebem misturas podres em aposta de 80 euros, esses “seres” oniscientes dominam uma história que vai do zero ao mil em um corte seco de cena, o que me lembrou também os delírios mais surreais do também Bruno Dumont que troca os atores reais por uma sensação de delírio.
La Gradiva tem também aquela sensação de que algo está errado e a gente não sabe se isso é bom ou não, se alguma coisa vai acontecer ou o contrário, não tem que acontecer nada mesmo.
E criar esse clima no cinema de 2026 é um ato heróico onde muito pouca gente consegue algo parecido e daí pra não lançarem esses filmes é só um passo em falso.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

