Eu fui assistir Naza com a expectativa de me acabar de chorar, de sair do cinema com a cara inchada e tudo mais.
Mas não.
Saí com ânsia de vômito e mais desprezo ainda.
O documentário dirigido pelos oscarizados Yuval Abraham e Rachel Szor do maravilhoso No Other Land, entrevista 24 pessoas que trabalham na inteligência do exército de Israel e que são responsáveis pelos ataques em Gaza que miravam membros do Hamas.
Aí entra o termo Naza que significa “casualidade de guerra”, pessoas que “por acaso” são mortas em ataques que não eram focados nelas.
Por exemplo: cada alvo potencial, cada membro do Hamas, ia recebendo “notas” em Nazas, que era o número de pessoas à sua volta, seus filhos, sua mulher, seus parentes, vizinhos, o dono da padaria onde ele comprava pão. Cada pessoa era uma Naza e esses alvos vinham com o número junto, tipo, ao matar o fulano de tal, a expectativa de pessoas que morram no ataque é de “tantas” nazas.
O exército de Israel sabia sempre que morreriam pessoas em todos os ataques e não se importava se eram crianças, bebês, mulheres, idosos ou o dono da padaria. Para eles, tudo é Naza, só o número era relevante mas não importante. Era só um número para eles fazerem a conta no final do dia para a planilha de excel.
Detalhe: alvos com valores abaixo de 20 nazas não precisavam de autorização superior para serem aniquilados. Só os acima. E existiam alvos com 500 nazas. E várias vezes esses alvos não morriam no ataque, “só as 500 nazas”.
E como eles controlavam esses alvos? Pelo celular. A rede de telefonia de Gaza é toda controlada por Israel, e a inteligência tem acesso a todos os celulares e a todos os dados nos celulares, em tempo real. Assim sendo, era difícil errarem um alvo.
E como se sabe tudo isso?
Essas 20 e poucas pessoas da inteligência do exército deram entrevistas com os rostos na penumbra e com alteração de voz via IA, sem mostrar suas caligrafias, porque eles desenham muito para explicar. E os diretores sabem exatamente o que perguntar e como conduzir a entrevista para essas pessoas declararem absurdos, o que ia embrulhando meu estômago à medida que o filme ia passando.
Eu tinha lido relatos de muita gente saindo do cinema chorando muito, de coração dilacerado mas o que me pegou mesmo foi a frieza, foram declarações onde eles se comparam aos nazistas na guerra, onde eles dizem que fariam de novo e pior de tudo, quando dizem que a meioria deles não tem nada contra os árabes, mas que guerra é guerra.
Não por nada o filme é produzido pelo jornal britânico The Guardian e pelo meu diretor preferido Jonathan Glazer, o cara que nos entregou o filme do século, Zona de Interesse, um filme não coincidentemente sobre o oficial nazista que coordenava a matança desenfreada de judeus em um campo de concentração enquanto morava em uma casa incrível do outro lado do muro, como se nada de ruim estivesse aonctecendo.
Enquanto nós assistimos as entrevistas sendo conduzidas em coberturas de prédios em Tel Aviv, vemos como em Janela Indiscreta cenas de pessoas vivendo em seus apartamentos enquanto os oficiais contam como derrubavam prédios inteiros a poucos kilômetros dali para matarem um membro do Hamas que poderia (ou não) estar naquele lugar, aquela hora específica. O contraponto geográfico, ou até geopolítico é de cortar o coração.
Assim como todo o filme.
A partir de novembro o filme estará disponível no site do The Guardian. Não percam.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬

