284/2026 NA TERRA DE ARTO

Em sua estreia na ficção com Na Terra de Arto (Le Pays d’Arto / Արտոյի Երկիրը), a documentarista armênia Tamara Stepanyan constrói um drama de luto que rapidamente se recusa a ser apenas intimista em sua estreia na ficção.

O que começa como a burocrática tarefa de legalizar o óbito de Arto (Hovnatan Avédikian) por sua viúva francesa, Céline, logo se transforma em uma vertiginosa descida à fratura de uma identidade forjada. O roteiro — assinado a dez mãos por Stepanyan ao lado de Jean-Christophe Ferrari, Jean Breschand, Jihane Chouaib e Romy Coccia di Ferro — brilha precisamente por sua arquitetura engenhosa: desmonta o melodrama convencional para erguer uma narrativa de suspense existencial e geopolítico.

A força condutora do longa repousa na direção de elenco impecável de Stepanyan. Camille Cottin entrega uma das atuações mais densas e despidas de vaidade de sua carreira, modulando o desconcerto de quem vê a imagem do parceiro de uma vida inteira ruir a cada certidão negada e a cada interlocutor local que desconhece sua existência. Ao lado de Cottin, a presença magnética de Zar Amir Ebrahimi injeta uma tensão tácita e cúmplice ao elenco, equilibrando a estranheza do olhar estrangeiro com a crueza de quem habita a complexidade do Cáucaso.

A inteligência do roteiro atinge seu ápice ao articular a contemporaneidade mais urgente com o peso mítico da ancestralidade. Longe de ser apenas um drama de introspecção e memória, o filme ganha o pulso de um suspense seco quando o carro que Céline “herda” revela compartimentos de armas clandestinas — lembrete visceral de que a guerra não é uma lembrança do século passado, mas uma ferida aberta e em curso. A colisão entre a tentativa ingênua da protagonista de redescobrir as raízes poéticas do marido e os segredos práticos, perigosos e armados que ele ocultava confere ao filme uma voltagem dramática implacável. Céline busca fantasmas e heranças afetivas, mas tropeça em contrabando, duplicidade e um homem que ela claramente nunca conheceu por inteiro. O que a faz aprender a sobreviver no caos, como vemos no último pedido que faz em relação à identidade do marido morto.

Essa tensão entre verdade e fabulação reverbera diretamente sobre a própria condição geopolítica da Armênia. Conduzida pela fotografia precisa e atmosférica de Claire Mathon — pontuada pelas cordas ásperas e cortantes da trilha de Marc Ribot —, a paisagem armênia emerge como uma entidade espectral: um país que ora “não existe” no mapa oficial, engolido por impérios, tratados e fronteiras em disputa; ora existe, erguido pela pedra, pelos mosteiros e pelas cinzas; e logo deixa de existir novamente sob as ameaças de novos apagamentos históricos.

O maior trunfo de Na Terra de Arto é espelhar a mentira individual de seu protagonista ausente no próprio destino coletivo armênio. Assim como Arto precisou inventar a si mesmo para sobreviver ao deslocamento e ao trauma do desterro, seu povo carrega a sina milenar de existir e resistir mesmo quando o solo sob seus pés lhes é negado. Um filme potente, que transforma a decepção pessoal de uma mulher na crônica pungente de uma terra marcada pela coragem da permanência, bom o suficiente para que a Armênia o indique para uma vaga ao Oscar de Filme Internacional em 2027. E pra nossa sorte o filme trá pre estreia na Mostra de São Paulo e será lanado pela Autoral ainda este ano.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬

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