Quantas vezes o cinema já nos contou exatamente esta história? Uma ex-combatente implacável das forças armadas americanas tenta reconstruir os cacos da própria vida, atolada na precariedade de um trailer park empoeirado, contando os trocados para sobreviver. Para completar a cartilha do melodrama de ação, ela tem que passar o fim de semana com a filha pequena — que mora com o ex-marido —, justamente no instante em que uma unidade de soldados de elite geneticamente modificados decide transformar o vilarejo em zona de caça. Surpresa nenhuma no front: o manual de clichês é seguido à risca, vírgula por vírgula.
O que impede Protocolo de Extermínio de afundar no mar da irrelevância genérica (genética?), contudo, são duas forças distintas: a decupagem precisa de sua direção e o carisma avassalador de seus protagonistas em tela.
À frente do projeto, Adria Arjona carrega o filme nas costas com uma intensidade rara para o subgênero. Longe de cair na armadilha da “heroína invencível sem alma”, Arjona confere à personagem uma aspereza física e emocional palpável. O suor, a poeira, os hematomas e o desespero materno operam através do olhar compenetrado da atriz, que trata o absurdo do roteiro com uma seriedade invejável. Ela entrega não apenas domínio técnico nas sequências corpo a corpo e no manuseio de armas, mas uma vulnerabilidade crua que ancora o público mesmo quando os diálogos soam protocolares.
Do outro lado da trincheira, a escalação de Alex Poatan Pereira se revela um acerto de puro impacto visual. Funcionando como a encarnação do “soldadão fodão do mal”, Poatan não precisa de discursos elaborados (e nem os tem); sua imponência física, a frieza impassível do olhar e a letalidade de seus movimentos transformam a ameaça dos super soldados em algo realmente aterrador. Quando ele entra em cena, o choque entre os corpos ganha um peso biomecânico que faz justiça ao melhor cinema de porrada.
Tecnicamente, o longa surpreende. É muito bem filmado: a câmera tem clareza espacial, a fotografia explora com inteligência a poeira e o isolamento claustrofóbico do parque de trailers, e as sequências de ação fogem dos cortes frenéticos preguiçosos, valorizando o peso dos impactos e a coreografia.
Ainda assim, paira uma sensação de moderação inevitável no saldo final. Vindo com o carimbo da A24, Protocolo de Extermínio é competente, diverte e cumpre com folga sua cota de adrenalina, mas não transcende a sua própria fórmula pré-fabricada. É um entretenimento sólido e visceral para quem gosta do gênero, mas a A24 segue em dívida com a entrega de um filmaço verdadeiramente memorável neste ano.
NOTA: 🎬🎬🎬

