288/2026 THE GROUND BENEATH OUR FEET

A escolha de um documentário para representar um país na disputa do Oscar de Melhor Filme Internacional costuma sinalizar ousadia ou uma mensagem humanitária irrecusável. Foi com esse peso que a Islândia oficializou The Ground Beneath Our Feet (Jörðin undir fótum okkar), dirigido por Yrsa Roca Fannberg, como seu candidato para a edição de 2027 da Academia. À primeira vista, o projeto tem pedigree de sobra: premiado em festivais internacionais e vencedor do prêmio de Melhor Documentário no Edda Awards, o longa se propõe a um mergulho intimista no cotidiano do asilo Grund, o lar de idosos mais antigo de Reykjavík.

No entanto, quando as luzes se apagam e o filme acende, a nobreza temática e o verniz de “cinema de arte” colidem de frente com a realidade da projeção: trata-se de uma obra arrastada, monótona e cuja languidez narrativa cobra um preço alto da paciência do espectador.

Não questiono a pertinência do assunto. Em uma sociedade que higieniza e invisibiliza a velhice, apontar a câmera para a rotina de quem vive o crepúsculo da vida é um ato de profunda empatia. Yrsa Roca Fannberg — que trabalhou pessoalmente na instituição antes de filmar — busca retratar o envelhecimento não como uma marcha fúnebre, mas como um estágio habitado por afetos sutis, pequenos rituais e companheirismo, como detalha a produtora Akkeri Films.

O problema reside estritamente na execução cinematográfica. The Ground Beneath Our Feet adota uma abordagem puramente observacional, sem depoimentos tradicionais ou condução dramática. Embora essa escolha possa soar poética em teoria, na prática ela transforma 82 minutos em uma eternidade. A diretora confunde contenção com falta de dinamismo: as cenas sucedem-se em um ritmo moroso onde acompanhar um idoso ajeitando flores na mesa ou encarando o vazio por minutos a fio parece menos uma epifania existencial e mais uma ausência total de montagem expressiva.

Visualmente, o filme aposta na granulação e textura acolhedora da película 16 mm operada pelo experiente diretor de fotografia polonês Wojciech Staroń. Há, sem dúvida, planos bonitos em que a luz nórdica e as estações do ano dialogam com os corpos frágeis dos residentes. Mas a textura de celuloide só sustenta o interesse até certo ponto. O filme parece crer que o mero registro do ordinário se basta, recusando-se a construir arcos, tensões ou fricções que engajem quem assiste.

Mesmo quando surgem momentos de genuíno calor humano — como moradores se movimentando em suas cadeiras de rodas ao som de antigas canções ou acolhendo um colega de volta ao refeitório, momentos destacados na estreia do festival CPH:DOX —, a montagem de Federico Delpero Bejar não lhes confere energia suficiente para acordar o longa de seu torpor.

Tema importante não é sinônimo automático de filme memorável. The Ground Beneath Our Feet tinha tudo para ser um estudo comovente sobre a dignidade do tempo, mas perdeu-se em uma contemplação excessivamente apática e desprovida de ritmo. E outra, ter o Frederick Wiseman como referência é uma coisa, chegar aos pés do mestre do documentário é outra bem diferente.

NOTA: 🎬🎬

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