Sons of the neon Night é o filme que Hong Kong mandou para tentar uma vaga ao Oscar 2027. Fico impressionado como um filme tão genérico e sem graça como esse, violento demais, com pouca história e muita porradaria, seja considerado para tal honraria. É lindo, bem produzido, bem dirigido, elenco ótimo cheio de nomes importantes, mas não, historinha mais sem graça, nada relevante.
No plano sensorial, o filme dirigido por Juno Mak impressiona. Trata-se da produção mais cara da história do cinema de Hong Kong (com orçamento próximo de US$ 50 milhões) e com quase uma década de gestação.
O investimento salta aos olhos: a ideia de uma Hong Kong alternativa em 1994 coberta por uma nevasca implacável funciona muito bem na tela. A produção chegou a erguer uma réplica em escala 1:1 do movimentado bairro de Causeway Bay para filmar os confrontos sob o gelo. A fotografia dessaturada de Sion Michel e o trabalho de arte criam um neo-noir denso, onde o contraste entre os néons e a neve confere uma identidade visual marcante.
E o mais importante: reunir nomes como Takeshi Kaneshiro, Sean Lau, Tony Leung Ka-fai, Louis Koo e Gao Yuanyuan em um mesmo projeto é um feito que naturalmente atrai a atenção de festivais internacionais.
O problema de Sons of the Neon Night começa quando a imagem precisa contar uma história.
A premissa gira em torno do herdeiro de um cartel farmacêutico/narcótico (Kaneshiro) que decide provocar uma onda de atentados para criar um “mundo sem drogas” e apagar o passado sujo da família. O conceito soa promissor no papel, mas desmorona na execução.
Relatos da produção apontam que o primeiro corte bruto de Juno Mak passava de 6 a 7 horas de duração. A redução para pouco mais de duas horas fragmentou a narrativa, transformando conexões entre facções, policiais corruptos e assassinos em elos quase incompreensíveis. Conclusão: deveriam ter lançado como série.
Violência vazia de apostas dramáticas com tiroteios extensos, coreografias viscerais e chacinas gráficas se sucedem sem que o público se importe com quem morre ou sobrevive. A ação deixa de ser um motor da narrativa e vira mero espetáculo pirotécnico desprovido de tensão.
Os atores do calibre de Tony Leung Ka-fai e Sean Lau são reduzidos a figuras estóicas disparando frases de efeito enigmáticas, sem nuances ou dilemas morais reais que sustentem o conflito: o filme é pura superfície, nenhum sentimento.
A seleção de Sons of the Neon Night como representante oficial de Hong Kong ao Oscar de Melhor Filme Internacional diz mais sobre a política da indústria local do que sobre as chances reais da produção na premiação.
O comitê de seleção de Hong Kong costuma priorizar filmes com apelo de escala industrial, prestígio técnico e repercussão em festivais (o longa teve estreia internacional nas sessões da meia-noite do Festival de Cannes). É uma tentativa de reafirmar a relevância do cinema comercial do território em meio a um mercado cada vez mais sufocado e dependente de coproduções com a China continental.
No entanto, a Academia raramente premia thrillers policiais baseados puramente em exibicionismo estético e violência gráfica. O resultado final é um exercício de estilo luxuoso e fascinante de se olhar nos primeiros 30 minutos, mas que se esgota rapidamente diante da falta de um coração dramático.
NOTA: 🎬🎬1/2

