Conhecido tanto por sua música eletrônica como Mr. Oizo quanto por sua verve de cineasta prolífico do absurdo, um dos preferidos deste blog, o francês Quentin Dupieux, decidiu se aventurar pela primeira vez na animação com Le Vertige (2026). Exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, o longa parte de uma premissa simples: Jacques (voz de Alain Chabat) visita o amigo Bruno (Jonathan Cohen) para lhe dar uma notícia urgente: a humanidade inteira vive presa dentro de uma simulação.
O grande truque estético de Dupieux está na forma como ele escolheu dar vida a esse universo virtual. Em vez de recorrer à computação gráfica hiper-realista ou aos motores contemporâneos de última geração, o filme abraça deliberadamente uma animação poligonal tosca, travada e de baixíssima resolução, onde os personagens movem-se com a rigidez constrangedora de avatares antigos do Second Life, dos primeiros títulos da franquia The Sims ou de jogos de computador do início do milênio.
Texturas chapadas, expressões faciais congeladas e falhas visuais propositais reforçam a sensação de uma tecnologia gráfica completamente ultrapassada eu eu digo que aqui Mr. Oizo tentou criar uma poética do bug, do erro.
O diretor usa intencionalmente uma ferramenta técnica empoeirada para ilustrar um debate existencial que também parece ter parado no tempo.
O calcanhar de aquiles de Le Vertige é que, por trás da embalagem visual curiosa, a história simplesmente não se sustenta como algo original.
Mesmo quando o roteiro cita abertamente The Matrix (1999) para tentar desarmar o espectador pelo cinismo, a discussão soa irremediavelmente requentada. A hipótese da simulação viveu seu auge pop e filosófico na virada dos anos 1990 para os anos 2000, quando questionar a natureza do real ainda carregava um verniz de provocação transgressora.
Hoje, quase trinta anos depois, essa mesma ideia esgotou seu frescor e foi empurrada para as franjas das teorias da conspiração de internet — virando quase sinônimo de paranoia de quem usa “chapéu de papel alumínio”. Ao insistir nesse mote sem trazer nenhuma leitura sociológica ou emocional verdadeiramente nova, Dupieux parece estar contando uma piada cujo final todo mundo já decorou há décadas.
Para tentar contornar o vazio da premissa central, a narrativa aposta em um empilhamento obsessivo de recursos metalinguísticos:
- É ideia colada em cima de ideia, em um ritmo frenético de trocadilhos e tiradas desconcertantes.
- É comédia sobreposta à comédia, onde nenhum diálogo se leva a sério por mais de três segundos.
- É crítica em cima de crítica, satirizando tanto o cinema autoral quanto o consumo digital preguiçoso.
O problema é que tantas camadas de sarcasmo acabam soterrando qualquer conexão dramática real com os personagens. O filme vira uma espécie de esquete esticada que se retroalimenta da própria autoindulgência: o diretor ri do tema, ri da estética feia que criou e ri de quem tenta procurar sentido naquilo tudo. Nos primeiros quinze minutos, o disparate diverte; depois disso, a fórmula cansa e passa a andar em círculos.
NOTA: 🎬🎬1/2

