307/2026 RAZÃO E SENSIBILIDADE

Adaptar clássicos da literatura britânica é sempre uma faca de dois gumes: por um lado, o apelo com o público é garantido; por outro, a sombra da versão seminal de 1995 (dirigida por Ang Lee e roteirizada por Emma Thompson) é quase insuperável. Em Razão e Sensibilidade (2026), a diretora Georgia Oakley (Blue Jean) entrega uma releitura simpática que acerta em vários pontos visuais, mas prefere não arriscar muito além do manual.

A grande surpresa da sessão é ver Daisy Edgar-Jones finalmente funcionando bem na tela grande. Depois de enfileirar projetos questionáveis e verdadeiras bombas cinematográficas que testaram a paciência de quem a conheceu pelo sucesso na televisão, a atriz britânica encontra em Elinor Dashwood um terreno seguro.

Edgar-Jones segura o tom contido da irmã mais velha com maturidade, transmitindo a dor sufocada de quem precisa ser o esteio racional da família enquanto esconde o próprio coração partido. Não é uma atuação genial, mas é sóbria, delicada e evita o melodrama fácil — o que já representa um salto qualitativo gigantesco na carreira recente da atriz.

Do outro lado do romance está George MacKay encarnando Edward Ferrars. MacKay, que construiu uma carreira sólida explorando essa figura carismática de “galã feio” e pouco convencional, entrega um personagem genuinamente doce, desajeitado e bondoso: ele compreende o descompasso social e a hesitação moral de Edward, construindo uma dinâmica afetiva terna e crível ao lado de Daisy.

Mas o problema surge quando a câmera insiste em fechar demais no seu rosto. Em alguns momentos dramáticos mais tensos, MacKay perde a mão na sutileza e exagera nos tiques, espasmos e caretas em close-up, transformando a timidez do personagem em algo ligeiramente caricatural e desconfortável.

No departamento técnico, o longa brilha com folga. A direção de arte assinada por Francesca Di Mottola e o figurino de Grace Snell constroem um período regencial menos pomposo e mais tátil, ressaltando o isolamento do chalé de Barton e a rusticidade do campo com muito bom gosto. A fotografia em película 35mm de Arnaud Potier acompanha esse cuidado, banhando as paisagens inglesas em uma luz natural suave e texturizada que enche os olhos.

Na condução dramática, porém, o filme acomoda-se A diretora Georgia Oakley demonstra competência para posicionar a câmera e orientar o elenco, mas não imprime uma assinatura autoral marcante. A encenação é quase protocolar, sem o ritmo vibrante que a diretora demonstrou em seus trabalhos anteriores.

O roteiro de Diana Reid cumpre a cartilha de Jane Austen sem cometer heresias, mas não traz a ironia mordaz, a sagacidade social ou os diálogos afiados que tornam o livro tão atemporal. Falta tempero e sobra conformismo.

Conclusão: bonitinho mas oridinário.

NOTA: 🎬🎬🎬1/2

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