Eu achei que fosse gostar mais de Primetime por ser dirigido pelo ídolo Lance Oppenheim. Mas também achei que fosse gostar menos por ser estrelado pelo Robert Pattinson. Estive certo em relação à direção, que é primorosa por todas suas escolhas e errado em relação ao Robert que está muito bem no papel de Chris Hansen, um jornalista americano que no início dos anos 2000 criou e apresentou um reality show bem polêmico.
To Catch a Predator tinha uma ideia que a gente pode chamar de revolucionária mas ao mesmo tempo perigosa: uma equipe cria situações falsas para atrair predadores sexuais, pedófilos, para se encontrarem com jovens que eles achavam ter 12, 13, 14 anos de idade.
Depois de muita conversa por aplicativos eles iam encontrar a criança, geralmente na casa da criança em uma noite que os pais teriam saído e o jovem, a jovem, ficaria por algumas horas em ninguém em casa. Lembrem-se que na época não existiam smart fones, não tinham aplicativos de conversa por vídeo, então era mais fácil enganar os predadores já que atrizes e atores com aparência mais juvenil e com capacidade de imitar a voz de uma criança.
Tudo armado, tudo preparado com câmeras e microfones, quando o predador chegava na casa da criança, ela dava desculpa de ir “lá dentro e já volto”, só que quem voltava era Chris, com papeis nas mãos com as transcrições das conversas e sempre perguntando “o que você acha que está fazendo aqui?”.
Depois da conversa inicial, a polícia entrava em cena e prendia o pedófilo.
Isso explodiu na televisão. Pro bem e pro mal. Escândalo por invadir a privacidade das pessoas, mesmo sendo pedófilo e predadores, porque os expunham em rede nacional, ecândalo por usarem a força policial sem autorização superior em um programa “qualquer”.
Mesmo que o programa fizesse um serviço social importantíssimo.
Corta para 2026 e a A24 lança essa versão ficcionalizada do caso, focada na história do reality show, focada na vida de seu criador e apresentador Chris Hansen e aí que mora o perigo: a vida de Chris é muito, mas muito sem graça. Ele não é um personagem que valha a pena ter sua história contada em um filme, mesmo que isso seja só uma desculpa para contar a história do reality.
Ter Lance Oppenheim dirigindo, em sua estreia na ficção depois de uma carreira preciosa na direção de documentários (como a aposta de ser o melhor documentário do ano que eu ainda não vi, You Can See Everything).
Diz a lenda que quando a produção deste filme começou, Oppenheim soube que seu colega David Osit estava produzindo Predators, um documentário sobre o mesmo tema (vou falar do filme amanhã). De cara Lance pensou em desistir do projeto mas depois de conversar com Osit tocou o filme, para nossa sorte.
Primeitme é uma experiência incrível, o mínimo que eu esperava de Oppenheim. Ele não caiu na fórmula óbvia de fazer um filme com cara de documentário e partiu para uma experimentação estética ousada, eu diria.
O filme tem uma cor quase fantasiosa. Nada é branquinho, com luz normal, luz de cenário de casa. Tudo é exagerado na luz, mesmo com essa luz pertencendo a uma paleta de cores não tão elétricas. O filme é por horas todo azul, por outras todo marrom, quase sépia, quase com cara de filme feito décadas atrás e reencontrados hoje e restaurados como puderam ser.
Mais do diretor Lance Oppenheim: ele teve outra ideia incrível, que foi transformar o personagem de Pattinson, o apresentador Chriss, quase que em um super herói. E meio que ele se sentia assim.
A primeira vez que ele aparece, a câmera está no andar debaixo da casa, ele sai por uma porta, dá uma virada como se estivesse usando uma capa de super herói, ou de rei e parece que o filme para e faz com que nossa respiração se suspenda por um momento.
O Chris de Pattison está sempre alguns tons acima das outras personagens do filme, que atuam como se estivessem no mundo real, enquanto Chris vive em um mundo de fantasia que ele criou e que espera que essa fantasia só aumente, que seu sucesso o leve a patamares que ainda nem existiam, já que reality shows já eram vistos como televisão menor.
E aí ele tenta compensar sua vida pessoal com probleminhas mundanos em alguma coisa mais importante do que realmente é. E esse roteiro acaba puxando o filme pra baixo, desviando a atenção do que interessa, que é o thriller que permeia o programa e se distrai com um casamento com problemas.
Ah, não posso deixar de falar de Skyler Gisondo, que faz o papel de Dan Plum, o ator que se finge de criança para atrair os pedófilos. O cara está bem demais, inclusive o roteiro deve ter sido mudado porque a importância dele no filme é muito maior do que “normalmente” seeria. Inclusive falam até de indicação ao Oscar, apesar de falarem que Pattison também merece ser indicado.
Mas isso é o tipo de marketing, de papo furado que a A24 adora plantar nas estreias de seus filmes.
A conclusão: só espero pelo próximo filme de Lance Oppenheim, que é o que importa no final das contas.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬

