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22/2019 O HOMEM QUE MATOU DOM QUIXOTE

Uma das minhas maiores decepções cinematográficas é assistir filmes novos do Terry Gilliam.

O cara que fez Brazil, O Filme, Time Bandits, Os 12 Macacos e criou e dirigiu o Monty Python deveria ter um final de carreira mais à sua altura.

Tudo começou com Medo e Delírio em Las Vegas, um filme que mais é literalmente uma bad trip das piores drogas possíveis do que qualquer outra coisa.

Depois vieram as porcarias Os Irmãos Grimm, Tidelands, O Imaginário do Dr Parnasus (que é um arremedo do Barão Munchausen) até eclodir no pior de todos Zero Theorem, de 2013.

Eu achei que ele fosse parar por ali, de vergonha, até que um tempo depois ele contou que iria retomar o grande projeto de sua vida, sua releitura de Dom Quixote, que já tinha sido iniciada nos anos 1990 onde ele se afundou absurdamente, quando Jean Rochefort era um homem que achava ser o Quixote e Johnny Depp um publicitário americano que se fez acreditar ser Sancho Pança.

Essa empreitada é maravilhosamente contada no brilhante documentário Lost In La Mancha, que mostra que desgraça pouca é bobagem.

Bom, Gilliam teve a sorte de encontrar o português Paulo Branco, um dos grandes produtores independentes vivos que resolveu bancar a empreitada.

Antes de falar que O Homem Que Matou Dom Quixote é uma porcaria homérica, devo dizer o quanto Gilliam deve ser insuportável, porque além de tudo, ele brigou com Branco que tentou embargar o filme ano passado para que não passasse em Cannes.

Só pra se ter ideia de quem é Paulo Branco, o cara bancou a retomada da carreira de um dos maiores cineastas de todos os tempos, o português Manoel de Oliveira, que voltou a filmar com seus 70 e tantos anos de idade e com quem ficou trabalhando até sua morte aos 107.

Mas o Gilliam é foda, deve ser cabeça dura demais, fez que fez que conseguiu lançar o filme.

O Homem Que Matou Dom Quixote é uma decepção infinda, de quase 3 horas.

A premissa é quase a mesma do original, antes um publicitário, agora um diretor de cinema temperamento (óbvio) americano (Adam Driver, em sua melhor performance até hoje) vai para a Espanha filmar sua versão de Dom Quixote depois de ter feito seu filme de faculdade sobre o mesmo tema anos antes.

Um dia de crise no set de filmagem, ele “percebe” (que bosta de roteiro, minha gente) que ele estava filmando perto do vilarejo onde tinha filmado anos antes e resolve ir até lá ver o que encontrava de sua época de estudante.

Para sua surpresa ele reencontra o sapateiro que ele transformou no Quixote fazendo apresentações bem mambembes como o Quixote.

Ao invés de ficar feliz e emocionado o que ele pensa? Que o cara está usando sua ideia e que ele merece receber royalties. Típico.

E sim, esse diretor é a maior metáfora descarada do próprio Gilliam, para o bem e para o mal.

A partir daí, o diretor e seu Quixote saem juntos não se sabe até agora como e nem porquê.

Ou melhor, eu não sei até agora nem como ou porque, já que o roteiro é um amontoado de vais e vens sem muito sentido.

Basicamente o diretor quer reencontrar a filha do dono do bar que foi a Dulcinéia do filme, mas ela virou uma atriz famosa na Espanha (como ele não saberia disso também? ele é tão cabeça no cu desse jeito mesmo?) e no meio do nada ele por acaso encontra com ela à beira de um riacho.

O filme é tão perdido que em algum momento um personagem pergunta: “o que nós estamos fazendo aqui mesmo?” e essa foi exatamente a sensação que eu tive, o que eu, todo mundo que assiste o filme e todo mundo que fez o filme, o que estamos fazendo aqui mesmo?

O filme é um emaranhado de sequências onde a fantasia e a realidade começam a se misturar e aos poucos vão se perdendo especialmente porque o próprio roteiro não sabe mais nos dizer qual o próximo passo.

Imagino o caos das filmagens, onde o diretor deveria falar “ah, fuck it, vamos fazer assim mesmo” para o roteirista que deveria estar tendo um infarto por dia.

O pior, que me deixou mais triste, é que o melhor do Gilliam está no filme, sua direção de arte, seus arremedos, seus mundos paralelos, os figurinos, os delírios.

Mas o que sobressai é o desencontro e, me desculpem pela repetição, a falta de roteiro.

Uma pena, mas uma pena mesmo.

NOTA: 🎬🎬

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