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25/2019 SE A RUA BEALE FALASSE

Não sei nem por onde começar.

Se A Rua Beale Falasse é um dos filmes mais lindos, em forma e conteúdo, que eu assisti ultimamente.

O filme é baseado em um romance do meu escritor americano preferido, James Baldwin e confesso que nem é um dos livros que eu mais gosto dele.

Pra quem não se lembra, Baldwin é o protagonista do melhor documentário americano dos últimos 20 anos, EU NÃO SOU SEU NEGRO, de 2016 (pra quem ainda não viu, o filme está na Netflix).

A Rua Beale é o novo filme do diretor e roteirista Barry Jenkins, o novo mestre americano, o cara que em 2017 nos presenteou com Moonlight.

Você lembra o quanto Moonlight era emocionante, com a história em 3 atos e como era lindo, com uma direção de fotografia colorida e absurdamente precisa?

A Rua Beale também é. Só que um pouco menos tudo. E isso não é ruim, muito pelo contrário, serve muito bem ao filme.

Na Itália eles dizem “meno forma, piú anima”, menos forma, mais alma. Jenkins consegue forma e alma, forma e conteúdo como se deve e se espera dele.

O filme conta a história de um jovem casal de namorados no Harlem, no início dos anos 1970, Tish com 19 anos e Alonzo com 22.

Eles são amigos de infância, sempre se amaram e quando cresceram, levaram esse amor para o próximo patamar.

Suas famílias são próximas mas não poderiam ser mais diferentes: os pais e a irmã dela são ótimos, família unida mesmo. Já a mãe e as irmãs dele são pessoas super ligadas à igreja e falam um bando de absurdos sem o menor pudor, para o desespero do pai.

O problema do casal é que Alonzo começa o filme já preso, acusado de um estupro que não cometeu, enquanto que Tish descobre estar grávida.

A felicidade da descoberta é logo dissipada pelas barras que os separam e se Tish e sua família vinham fazendo o que podiam para livrar Alonzo da cadeia, agora a luta vai ser maior ainda.

Jenkins nos conta essa história absolutamente melancólica com todas as tintas que ele consegue tirar do romance de Baldwin, conseguindo ser bem fiel e ao mesmo tempo bem ousado com suas escolhas.

Como o filme se passa nos anos 1970’s, numa parte pobre e negra e destruída de uma Nova Iorque largada às moscas, Jenkins consegue a proeza de fazer o amor nascer do lodo e florescer em meio a toda desgraça e preconceito possível.

Os detratores vão dizer que A Rua Beale é meloso demais e combativo de menos, mas o que Jenkins faz é exatamente o contrário. A sutileza e a poesia do filme dão os tons lúgubres mas sempre com uma luzinha que vem do nada a iluminar a história de Tish e Alonzo.

Tudo isso, obviamente, é brilhantemente realizado com um elenco dos sonhos.

Se em Moonlight Jenkins mostrou ao mundo quem é o maravilhoso (e oscarizado pelo filme) Mahershala Ali, em Rua Beale ele escancara de vez Regina King, a diva que vem ganhando prêmios e mais prêmios nos últimos anos e que aqui como a mãe de Tish deve levar o Oscar de coadjuvante ao que tudo indica, já que foi premiada no Globo de Ouro esse mês.

Além dela, o filme é estrelado pelo ótimo Stephan James (que brilha ao lado de Julia Roberts em Homecoming) e Kiky Laine, a atriz perfeita para dar vida a Tish.

Já falei que a fotografia é linda, a direção de arte também é e a trilha sonora é uma surpresa, não esperava que ele fosse por um lado ao mesmo tempo óbvio e surpreendente, tudo isso graças a mesma equipe que Jenkins usou em seu filme anterior.

Se a Rua Beale Falasse é uma ode ao amor, ao desespero, à luta e à esperança, aquela que morre por último e que quase sempre nos dá a força pra que continuemos.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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