Hoje minha amiga Patricia me mandou mensagem dizendo que ela leu minha resenha do Sonhos de Trem e não sabia se tinha gostado ou não do filme. E que eu não ajudei em nada, exatamente porque eu digo que é o tpio de filme que não me interessa mais assistir mas mesmo assim é um filme lindo.
Entra na conversa o marido dela, meu amigo Adriano Goldman, diretor de fotografia fodão (das séries Harry Potter e Star Wars) e solta: pra que contar a história daquele hermitão da floresta?
E esse é exatamente o ponto: não tem razão. É uma história bonita, fofa, de amor sem fim, mas não vale um filme de 2 horas que gastou milhões de dólares pra ser feito.
Entra o Alê na história, outro amigo que diz: o diretor de fotografia de Sonhos de Trem também é brasileiro, Adolpho Veloso, e o estúdio tem feito uma campanha pesada para que ele seja indicado ao Oscar de melhor fotografia.
Eu digo lá na resenha que a fotografia do filme é linda, um dos pontos altos do filme, e agora a torcida por ele cresce.
Tudo isso pra dizer que eu quase não assisti Depois da Caçada porque eu li tanta gente falando mal por tantos motivos díspares, inclusive que essa história não precisava ser contada porque a gente já viu muitos filmes e séries de tv iguais, que agora que o filme entrou na Prime Video eu fiz questão de assistir.
Primeiro eu fiquei bem impressionado com este novo filme do Luca Guadagnino, um thriller que demora pra ser, ou um drama que de repente vira um thriller um pouco afetado demais, que se passa em Yale, uma das universidades mais desejadas do mundo, no departamento de Filosofia, onde uma aluna modelo diz ter sido vítima de abuso sexual.
Depois de assistir o filme, fui ler mais as resenhas por aí e o povo realmente odiou o filme e critica absolutamente tudo.
Eu não amei, mas eu gostei bem do filme por 3 motivos e por 1 motivo minha nota foi mais baixa do que poderia ter sido.
Amei o filme antes de mais nada pela trilha sonora do Trent Reznor e Atticus Ross, minha dupla preferida da vida que revolucionou a música no cinema desde que venceram o Oscar de melhor trilha por A Rede Social.
Como de costume nas trilhas da dupla, aqui a trilha é uma personagem importantíssima do filme. Ela não só pontua cenas como ela quase explica detalhes importantes. Aquela brincadeira “quer que desenhe?”, neste filme, o desenho é a trilha, explicando muitas vezes o que se vê na tela, algo que poderia ser redundante mas que no caso é re-afirmativo de uma forma bem inteligente.
Outro ponto importante do filme, talvez o mais importante, é Julia Roberts. Conhece?
Ela é Alma Imhoff, a professora chefe do departamento de filosofia onde sua aluna preferida, sua pupila, acusa seu ex-aluno preferido, seu ex pupilo que agora é o professor assistente do departamento, de tê-la estuprado.
O que o roteiro faz com a personagem de Julia depois desta informação é das coisas mais legais que eu vi nos filmes este ano.
Nós vemos uma personagem muito bem “montada”, “desenhada”, “armada” se perdendo das formas mais inacreditáveis. O roteiro do filme é muito, mas muito bem decupado por Luca e suas personagens são “manipuladas” por um diretor ao mesmo tempo cuidadoso e frio e calculista, como deve ser. O diretor bom, na minha opinião, é aquele que ama seus personagens mas que não tem dó nem piedade de fazer o que precisar ser feito com eles.
Depois da Caçada tem uma das melhores cenas dos últimos anos e se Julia Roberts for indicada ao Oscar de atriz por este papel, eu tenho certeza que na premiação vão passar o momento que ela esculacha uma personagem, começando bem sutilmente e indo em um crescendo de impropérios intelectuais e sociais que só uma Professora com P maiúsculo seria capaz de proferir.
Agora o que “estraga” o filme na minha opinião é o roteiro.
Ao mesmo tempo que é bem escrito, com uma história sim conhecida, sim já contada mas aqui escrita com uns detalhes muito próprios e inteligentes, este roteiro leva Depois da Caçada a um final totalmente hollywoodiano no pior sentido possível.
Eu ODEIO quando assisto um filme e falo, sempre em voz alta, “fim, acaba agora por favor” e a cena se dissolve em uma tela preta e… o filme continua.
99% das vezes essa esticadinha acaba com o filme, ao invés de ter acabado o filme.
Aqui tem uma esticadinha que acaba com o filme, que, de novo, explica uma coisa que não precisava ser explicada. Deu vontade de falar “ô Luca Guadagnino, a gente já sabia disso, lá atrás a gente leu o super close que você deu pra que a gente lesse, a gente presta atenção no filme”.
Mas não, com certeza algum produtor executivo que não entende nada de cinema deve ter dito que o público é burro, que se não explicar tudo desenhando (olha a trilha lá), ninguém entende.
Por terem me tirado de burro desatento, tiro meia claquete da nota.
NOTA: 🎬🎬🎬1/2

