O FIM DA PIADA E O FIM DO MUNDO: A FINITUDE DE HACKS E DE BECKET

Quando as cortinas se fecham para o que indiscutivelmente se consagrou como uma das melhor es séries de comédia dos últimos tempos, é impossível não olhar para a trajetória de Hacks com reverência. Ao longo de cinco temporadas irretocáveis, a produção entregou não apenas um roteiro afiado, mas nos presenteou com a dinâmica magnética e inigualável entre Jean Smart, como a lendária Deborah Vance, e Hannah Einbinder, como a brilhante (e caótica) Ava Daniels. As duas construíram a melhor dupla de personagens da televisão recente. E é justamente no desfecho dessa jornada que a série transcende a comédia de palco para tocar em algo profundamente existencial, encontrando um eco inesperado no absurdo de Samuel Beckett.

No episódio final, que eu assisti sexta feira passada, Deborah Vance anuncia que está com câncer e decide roteirizar sua própria saída de cena: planeja ir a uma clínica de eutanásia na Suíça. Mas, antes de puxar a cortina, exige uma última turnê pela Europa ao lado de Ava. Em meio a passeios por paisagens europeias, jantares refinados, muitas taças de vinho e a decisão mundana de não comprar um jogo de saleiro e pimenteira (um que ela não possui em sua coleção), a sombra da morte as acompanha. Contudo, em uma epifania brilhante — ao não encontrar o final perfeito para uma piada —, Deborah resolve viver. O retorno a Las Vegas sela um final feliz que, longe de ser banal, é uma afirmação da vida através da arte.

É fascinante colocar esse desfecho lado a lado com Final de Partida (Endgame), de Beckett, que eu assisti sábado passado na montagem estrelada por Marco Nanini e Ary França. Na peça, quatro personagens estão confinados no fim do mundo, esperando que tudo acabe, mas resistindo obstinadamente enquanto podem. Trata-se de uma obra sobre o nada, sobre o pós tudo e sobre as dinâmicas dos pequenos poderes: o homem rico e cego na cadeira de rodas, que exige de seu empregado que o alimente, traga seu remédio, seu cachorro de pelúcia, o mude de lugar, suba na janela para narrar a paisagem ou chame seus pais (confinados em latões de lixo). O empregado, por sua vez, enxerga e se movimenta; ele faz o que quer e como quer, mas, paradoxalmente, continua a obedecer ao patrão.

O que conecta a suíte luxuosa de Las Vegas ao abrigo pós-apocalíptico de Beckett é o peso esmagador do fim. No fim das coisas — seja o fim do mundo ou o fim da vida —, decisões drásticas são tomadas. Os personagens tentam, a todo custo, exercer controle sobre a própria narrativa. O patrão de Beckett dita ordens no vazio para sentir que governa seu próprio fim; Deborah tenta agendar a própria morte na Suíça para não perder o papel de diretora da sua vida.

No entanto, a finitude, mesmo sendo uma certeza inegável, acaba exercendo um poder muito maior sobre essas decisões do que nós, os personagens de Beckett ou a própria Deborah Vance, ousamos esperar. Para os sobreviventes de Final de Partida, a finitude os aprisiona num ciclo de resistência e dependência mútua. Para Deborah, a proximidade do fim revela que a vida ainda guarda a sua melhor punchline. No confronto com o inevitável, Beckett nos mostra a paralisia do absurdo, enquanto Hacks escolhe a rebeldia do riso, provando que, até o último segundo, a comédia e a vontade de viver têm a palavra final.

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