The Ones Who Grieve é o título internacional em inglês do filme horror #alertafilmão francês Les Âmes En Peine, quem em português quer dizer Almas Penadas.
Sabendo isso, o filme toma uma outra direção. Sutil mas outra.
A história se passa no século XIX, numa fazenda no meio do nada francês onde Jacob, um auto intitulado “salvador”, resolve os problemas das pessoas que são infectadas pelo “Véu Negro”, um tipo de uma praga, que primeira se mostra pretejando totalmente os olhos desses infectados.
Jacob, que aos poucos vai se sentindo não só um salvador mas quase um semi-deus, de tão doido que é, criou uma forma de matar essas pessoas aos poucos: ele dopa o infectado, costura seus olhos e sua boca e voloca uma máscara de madeira que ele mesmo produz presa por grilhõess, sem buraco nenhum, nem para respirar, nem para beber água.
Esses infectados são largados no meio do nada e então pessoas passam para recolher seus cadáveres. Todos os dias. Sempre tem alguém morto.
Obviamente que o problema todo é que Jacob é um canalha. Não só com os doentes, mas principalmente em casa com sua esposa obesa a quem ele despreza, bate, maltrata mas mesmo assim a usa para se satisfazer sexualmente.
E também maltrata muito sua filha Zélie (Zélie Rixhon), uma jovem que ele trata quase como uma escrava, que não pode ter vontades, que o ajuda “cuidando” dos infectados e que obviamente não pode olhar para os lados, muito menos ainda para qualquer homem que lhe cruze o caminho.
As almas penadas do filme são praticamente todas, vivas ou quase mortas, que cruzam o caminho de Zélie. Em uma leitura apressada e preguiçosa, este poderia ser considerado um filme de zumbis, mas zumbis meio que “produzidos” pela vida real. Não espere um filme de mortos vivos, mesmo que os de cabeça de madeira praticamente são, mas são mortos vivos querendo morrer, não suportando terem que esperar poucos dias para irem dessa para , se tudo der certo, uma melhor.
E a pior das almas penadas é o pai de Zélie, Jacob talvez seja o pior vilão do cinema de 2026, um homem baixo, violento, vil, frio, que não tem dó nem piedade e que faz qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para alcançar seus objetivos mais estúpidos, coitada de sua filha.
O bom é que o desgraçado sofre aos nossos olhos. Ninguém o suporta, ninguém quer conversa, as pessoas só lhe procuram quando agum infectado precisa ser “mascarado”. E sua filha Zélie é a grande sofredora do filme, a pessoa que mais sofre e a mais forte, porque ela tira forças não sabe de onde para continuar e se veer finalmente livre do pai.
Tadinha. Tolinha.
A história só piora, como uma boa (ou ruim) história de horror caipira, como todo bom folk horror deve ser.
Mas o filme não acaba aqui. Almas Penadas (sim, assumi o pseudo título nacional) tem um toque incrível de dicotomia histórica. Enquanto naquele meio do nada os infectados são tratados como animais, há uns bons quilômetros dali a eletricidade chegou, as geladeiras e as lâmpadas caseiras já estão funcionando e os médicos já conseguem curar os infectados com choques elétricos diretamente nos cérebros das pessoas doentes.
A liberdade e o futuro que Zélie tanto procura está a horas de distância a cavalo enquanto ela sofre e tenta e procura mas cada vez menos enxerga uma possibilidade, uma luzinha de esperança. Mas ela tenta, não se cansa, é abusada, é vilipendiada mas não se dá por vencida.
Quarxx, o diretor e criador deste mundo, não poupa ninguém, não tem medo de ousar para o bem e para o mal e aposta em um filme com um pé na religiosidade, outro no presente que já é passado ultrapassado, outro na possibilidade do futuro que está dobrando a esquina, outro pé na ancestralidade e outro pé bem fixo na força da mulher que desde sempre teve que se virar para sobreviver.
Sim, são vários pés, várias possibilidades, várias vertentes de histórias que juntas criam esse mundo onde a desgraça e a possibilidade já andam lado a lado e onde a violência de Jacob, vivido por um Thierry Frémont que rouba o filma e não deixa mais nada pra ninguém, onde a violência e a estupidez acabam sendo mais fortes e mais poderosas que qualquer razão possível.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

