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12/365 A FORMA DA ÁGUA

Já faz uns dias que eu assisti A Forma da Água, o mais recente filme do tão amado diretor mexicano Guillermo Del Toro e não tiro o filme da cabeça.

Tão amado porque o cara faz filme de monstro e ponto final. Nada mais legal que isso.

Mas nem sempre seus filmes são bons como poderiam (nem digo deveriam) ser.

Gosto muito do Labirinto do Fauno e da Espinha do Diabo e também de seu primeiro, Cronos e do primeiro Hellboy mas o pseudo blockbuster dos robôs Pacific Rim eu acho um das maiores porcarias dos últimos anos, mas talvez a explicação seja o bonitão inglês Charlie Hunnan, que só faz filme ruim.

Já A Forma da Água é o filme (quase) perfeito.

Começa com uma bela ideia de uma história de amor entre um monstro marinho e uma mulher muda e estranha.

A história se passa no início dos anos 1960’s, em plena Guerra Fria, onde tudo é desculpa pra tudo.

Começando com isso, a direção de arte não poderia ser mais linda, cheia de cores vindas de neons onde eles existiriam e com os interiores frios e modorrentos e sem vida como deve ser um país vivendo um pós guerra.

Assim, o diretor de fotografia Dan Laustsen deita e rola e faz um dos filmes mais lindos, esteticamente, da temporada.

Com referências perfeitas que vão desde Delicatessen a O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, passando por Brazil, o Filme, a fotografia e a direção de arte são as coisas lindas do ano.

E para os chatos de plantão, a luz desse filme é provavelmente o que o Woody Allen quis que fosse o seu Roda Gigante e falhou miseravelmente. Ele deveria ter mirado em Delicatessen mas acertou  (ou errou) em Moonlight. (Apenas pare, Woody)

A partir da ideia, o roteiro é quase perfeito. E é aí que mora o problema do filme. Mas antes da imperfeição, vou continuar elogiando.

Sally Hawkins é a muda que trabalha de faxineira em um complexo militar, o mais baixo da cadeia “alimentar” de empregos neste caso, naquela época, naquelas circunstâncias; a muda deficiente que é companheira de trabalho das negras, e pior, amiga delas, para espanto de todos. Ou melhor, só entendem porque ela está lá quando sabem de sua deficiência, meio que dizendo que alguém como ela não merece pertencer onde deveria, num país ultra racista e segregacionista como eram os EUA na época.

Ela e sua companheira, vivida lindamente por Octavia Spencer, catam papéis jogados no chão displicentemente pelos homens que não se dão ao trabalho de acertar a lixeira. Limpam a urina desses mesmos que não miram as privadas. E assim vão numa espiral decadente péssima.

Mérito do filme e do diretor: a dupla de atrizes.

Sally e Octavia.

Se elas passassem o filme lendo a lista telefônica já mereceriam indicações ao Oscar.

Voltando à história, um dia elas entram em um laboratório para faxinar e lá dentro se deparam com o tal monstro marinho, trazido dos cafundós do Amazonas, “um Deus para os selvagens de lá”, mas que está preso e por isso é muito hostil, a não ser com a deficiente, que aos poucos vai se aproximando dele e, como ela não fala e nem ele, tenta se comunicar com ele pela linguagem de sinais.

Sempre que pode, ela entra sorrateiramente no laboratório e escondidos, eles conversam como podem. E um sentimento inesperado vai nascendo desses encontros.

Essa eu acho a primeira grande  falha do roteiro: a aproximação dos 2 é muito fácil e normal e rápida, impossível em uma situação dessas de base militar, chefe durão, Guerra Fria.

Falando em chefe durão, o responsável pela missão é um Michael Shannon como nunca se viu, o já grande vilão do ano.

O cara é violento, grosseiro, tosco, misógino, preconceituoso e daí pra baixo.

A cena que ele assedia a deficiente é uma das coisas mais violentas do ano no cinema.

A mulher e o monstro vão cada vez ficando mais próximos até que ela ouve que o exército vai matar o monstro por não saber o que fazer com ele e para estudar seu corpo.

Ela resolve tirar o monstro de um laboratório do governo, ultra secreto, num prédio cheio de câmeras e seguranças armados e pra isso pede ajuda ao seu amigo artista gay, que também sofre preconceito (em cenas bestas que nada dizem no filme) e, BAHM, eles conseguem levar p monstro pra casa e lá ele fica vivendo na banheira cheia de água e sal!

Este é o segundo mega ponto fraco do roteiro.

Como assim, Del Toro?

O roteiro resolve de forma  absolutamente rasa os 2 grandes “problemas” da história, a paixão de uma humana por um monstro e a fuga de um complexo militar.

Eu assistindo pensava, putz, tava indo tudo tão bem…

Mas como disse antes, quase tudo no filme é perfeito e a direção de Del Toro atingiu nível de mestre do cinema.

E eu tenho certeza que ele deve ter filmado muito mais do que vimos e ficou tudo pela sala de edição.

A Forma da Água é um filme que deveria ter pelo menos mais uma meia horinha para resolver esses probleminhas da história.

Além dos 2 que eu já citei, o problema do amigo gay e outro que é o dos espiões russos querendo roubar o monstro, principalmente por ter um personagem como o do cientista vivido pelo grande Michael Stuhlbarg, o pai do Elio no Me Chame Pelo Seu Nome.

Mas… Mas para compensar, as cenas do monstro na casa dela e do romance dos 2 são lindíssimas.

O monstro acender luzes pelo corpo quando fico excitado ao vê-la é uma cereja num bolo apetitoso.

E eu pretendo fazer um post em breve só sobre as cenas lindas desse filme.

Tudo isso contado pela trilha brilhante (ops) do francês Alexander Desplat, que já ganhou o Globo de Ouro e deve levar o Oscar, apesar de minha torcida ser pela trilha de Dunkirk.

Falando em prêmios, A Forma da Água já começou a carreira recebendo o prêmio máximo do Festival de Veneza de 2017, vários Globos de Ouro e ontem mais um monte de Critics Choice Awards.

Apesar dos poucos pesares, A Forma da Água é lindo lindo.

Mas eu já tô esperando a versão longuíssima do diretor no BluRay.

P.S.: ah, e só um detalhe do filme que me deixou feliz, a personagem de Sally mora em um apartamento sobre um cinema que se chama ORPHEUS, que é o homem que desce aos quintos dos infernos para salvar sua amada morta Eurídice, meio o que faz Elisa, a bela quando salva sua fera.

Nota: 🎬🎬🎬🎬

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