088/2022 GREAT FREEDOM

Great Freedom é o filme que mais fiquei mal por não ter assistido na Mostra de SP do ano passado.

Esperando que entrasse em cartaz no Mubi, relaxei.

Mas ontem o filme caiu na minha mão e eu ainda estou sob o efeito de um dos melhores filmes dos últimos anos e, desculpem a minha emoção e o meu entusiasmo de sempre, e do melhor filme gay de todos os tempos. E quem diria que fosse um filme austríaco, nível de genialidade de Lamb, A Pior Pessoa do Mundo, Titane e Drive My Car, só pra citar meu top 5 de 2021.

Pelo menos na lista de hoje.

Começa que o filme é estrelado por um dos maiores atores desses nossos tempos, Franz Rogowski, o ator fetiche do Christian Petzold e premiado por um dos meus preferidos de 2021, ainda inédito por aqui, Luzifer.

Great Freedom se passa na Alemanha do pós guerra onde Hans Hoffman (Rogowski) é sistematicamente preso por ser homossexual, o que era proibido por lei, tanto que o levou a um campo de concentração e o marcou no braço pra sempre com o 175, o número do código da tal lei.

Hans é preso depois de ter sido pego cometendo atos ilícitos em um banheiro público, tudo filmado por policiais a paisana, escondidos em paredes falsas (como a gente vê também no polonês Entre Frestas).

Mais uma vez de volta à prisão, Hans retoma contato com companheiros que nunca saíram, como ele, e outros novos que também foram presos de formas semelhantes.

E Hans ainda explica para um jovem professor, que foi preso na mesma operação que Hans, que ele não tem emprego certo, que ele ou trabalha como costureiro quando está preso, ou fica frequentando banheiros e parques para fazer sexo e só espera ser preso novamente.

A vida do preso gay não é fácil, os presos “machões” não os suportam ou tem medo deles ou sei lá o quê, mas pelo fato de estar saindo e voltando sempre, Hans fez alguns amigos na prisão, um que lhe fornece drogas, outro que ajuda cobrir sua tatuagem dos campos e também os novos presos, principalmente os gays, a quem Hans vai ensinando como se comportar lá dentro, como conseguir fazer sexo e por aí vai.

A genialidade do diretor e roteirista Sebastian Meise está em nos mostrar o quanto um personagem como Hans, um homem gay que não tem a menor expectativa de ter uma vida razoável senão dentro da cadeia, me deixou embasbacado.

Principalmente porque o filme é de um apuro técnico muito pouco visto até então em filmes com esse nível dramático-filosófico, o que me irrita muito, porque parecia que ou você faz um filme “de roteiro” ou faz um “filme de estética”.

Great Freedom é tudo isso e muito mais.

As personagens do filme são estudos sobre o ser humano, todos diferentes uns dos outros e todos com quantidades infinitas de camadas de personalidade.

O filme poderia ser um estudo e um libelo sobre a criminalização da homossexualidade ou sobre a degradação do ser humano que vive encarcerado. Juntos então, é um petardo.

Mas a sutileza com que Meise filma sua história, muitas vezes nos contando horrores em diálogos em super closes, mostrando quando muito as reações em olhares ao invés de externar tudo por gestos e atitudes corporais, faz com que o horror seja diluído em princípio para que, quando menos esperamos, exploda na nossa cara.

Mas veja bem, essa sutileza toda do filme vem desatrelada de romantismo, de sentimentalismos baratos.

O amor em Great Freedom existe de formas que, de novo, a gente não espera.

Mais vale pegar dias de solitária em consequência de um bom sexo proibido do que não fazê-lo e ficar passando bilhetinhos e trocando olhares furtivos como em uma comédia romântica.

Hans aprendeu que não só o sexo é criminalizado, mas o amor que ele sentiu e que poderia sentir de novo, o que ele parece evitar para não ter que sofrer em dobro, já que os relacionamentos, os encontros e as despedidas são mais duras quando o sentimento envolvido é mais profundo do que o necessário.

Para minha e nossa sorte, Great Freedom me causou o mais profundo amor, não só pela história de Hans, vivida por um ator como Rogowski, mas principalmente porque essa história foi contada como nunca antes, com o poder de um rinoceronte cinematográfico e a sutileza de um bater de asas de uma borboleta fílmica.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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