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241/2025 O ÚLTIMO AZUL

Muitas vezes eu falo brincando (quase brincando) que tal filme é tão ruinzinho que poderia ser lançado pela Globo Filmes. 

Claro que é uma crítica ao monte de comédias ruins que eles lançam, mas comédias ruins são lançadas pelo mundo todo e parece que a fórmula existe de fazer filme porcaria e ganhar dinheiro com isso.

E a Globo Filmes conhece bem essa equação de 1+1=2.

Só que quando os caras ficam sérios, a história é outra.

A Globo Filmes, por exemplo, é co-produtora de Ainda Estou Aqui, o filme do Walter Salles que ganhou prêmios e mais prêmios, inclusive o Oscar de Melhor Filme Internacional, o primeiro para um filme brasileiro.

Agora preste bem atenção.

Programe-se para ir ao cinema hoje mesmo para assistir O Último Azul, um dos melhores filmes que o cinema brasileiro poderia produzir.

Quando falo “cinema brasileiro” neste caso o nome é Gabriel Mascaro, o cineasta pernambucano que já vinha dizendo ao que veio com o maravilhoso Boi Neon de 2015 e a distopia crente Divino Amor de 2019.

O filme conta a história de Tereza, que vive em uma Amazonas distópica, onde todas as pessoas quando completam 80 anos de idade são encaminhadas para viverem em uma colônia habitacional onde vão desfrutar seus últimos anos de vida.

E não tem conversa.

Completou 80 anos, tem que ir.

Só que antes mesmo, as pessoas mais velhas já perdem seus direitos e são “controlados” por seus filhos, não podem fazer nada por si só, precisam de autorização pra tudo.

Mas Tereza não está pronta pra isso tudo.

Ela ainda quer voar de avião.

E quando encontra a oportunidade certa, foge para uma viagem para ganhar os céus, só que pelos rios amazônicos.

No cinema existe o “road movie”, o “filme de estrada”, aquele tipo de filme que os personagens entram em um carro e atravessam continentes para contarem suas histórias, que só poderiam ser contadas na estrada.

O Último Azul é um “boat movie”, filme de barco, porque para se locomover pela Amazônia e tentar voar, Tereza vai de barco. E aos poucos vai percebendo que aquelas são suas viagens pelos céus.

Primeiro ela pega carona pagando escondida no barco do Cadu (um Rodrigo Santoro feio, melancólico, solitário e o melhor ator possível), que promete levá-la a um povoado onde um homem tem um aviãozinho onde ela pode voar sem ter que pedir autorização à filha.

Mas Cadu, como é a regra em um road/boat movie, faz Tereza, do alto dos seus 77 anos de idade, aprender a se deixar levar, a ouvir o silêncio do rio, o silêncio ensurdecedor dos igarapés e principalmente mostra a Tereza o caramujo azul, que aparece quando ele quer, não quando alguém procura, cuja gosma azul pingada nos olhos faz com que se enxergue o além, naquelas viagens poderosas de auto conhecimento.

Tereza não se cansa de tentar voar mas vai descobrindo que seu lugar é mesmo pelos rios, viajando hora procurando o avião do Ludenir que a leve aos céus, hora encontrando a colega Roberta, dona do barco que vende Bíblia digital para os ribeirinhos e que vai ser sua próxima  companheira de aventura.

Gabriel Mascaro cria um universo tão único pela paisagem que a gente só vê nos telejornais que parece que estamos entrando em um mundo ao mesmo tempo familiar e totalmente novo. Se tivessem me falado que aquilo era em Marte eu teria acreditado porque a Amazônia profunda é das coisas mais incríveis de se ver.

O Último Azul estreou no Festival de Berlim este ano e saiu de lá premiado com o Urso de Prata, o Prêmio do Juri, meio que o segundo colocado de um dos maiores festivais de cinema do mundo, feito único e mais que merecido para um filme inovador só que com a sensação de ser totalmente íntimo a nossa cultura, mostrando que nós brasileiros temos o Brasil no nosso DNA.

Pra terminar, dizer que Tereza é vivida pela MONSTRA Denise Weinberg, atriz que deve ser reverenciada de joelhos, a alma e a vida de O Último Azul.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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